
É com entusiasmo limitado que o setor de couro, com polo na região metropolitana de Porto Alegre, recebe o anúncio de conclusão do acordo de livre-comércio entre Mercosul e Associação Europeia de Livre-Comércio (Efta, bloco formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein).
Como a coluna já havia mostrado, o segmento tem a maior participação nas exportações gaúchas para o bloco europeu. Do total enviado em 2024 (US$ 37,9 milhões), 36,4% é couro (US$ 13,8 milhões). Entre janeiro e maio de 2025, foram mais US$ 4,7 milhões.
No entanto, o presidente-executivo do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), que representa as empresas do segmento, José Fernando Bello, avalia que o novo acordo Mercosul-Efta não deve gerar impacto significativo, porque o couro brasileiro já tem tarifa zero ao entrar em Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein.
— Dependendo da base tarifária, não é um estímulo adicional, porque já está zerada. Mas o acordo bilateral Mercosul-Efta estimula a aproximação entre os blocos. Uma relação mais aprofundada traz mais confiança e pode ampliar negócios — diz Bello.
Conforme o executivo, os países da Efta compram cerca de US$ 55 milhões em couro por ano. A maior parte dos envios do produto do Rio Grande do Sul para lá vai para empresas norueguesas, que usam a iguaria para estofamento de móveis residenciais.
Segundo a Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), além do couro, outros segmentos gaúchos que têm potencial de ser beneficiados pelo novo acordo são de tabaco, biodiesel e carne de frango. A entidade, no entanto, pondera que só 0,2% das exportações totais gaúchas tiveram como destino países do Efta em 2024.
Outra parceria a reboque
Um dos principais setor da economia do Estado, o calçadista não exporta grandes quantidades para países do Efta, portanto o novo tratado não deve gerar impacto significativo. Os envios somaram US$ 127,8 mil em 2024.
Para o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, o acordo Mercosul-Efta sinaliza que as negociações entre o bloco sul-americano e a União Europeia (UE) também devem avançar, o que interessa mais ao setor.
— É uma possibilidade de aumentar as exportações e pode ajudar a facilitar a evolução do grande acordo, entre Mercosul e União Europeia — avalia Ferreira.
Pelo lado da importação
O Rio Grande do Sul mais compra do que vende para os países da Efta. O que mais pesa é a importação de adubos e fertilizantes químicos. Os US$ 42,2 milhões de 2024 foram quase a metade do total enviado dos países do bloco europeu para cá. Entre janeiro e maio de 2025, foram mais US$ 23,6 milhões.
Todo valor vem da Noruega, onde fica a sede da Yara, empresa de fertilizantes com unidades no Estado. Em nota, a companhia afirma ver o acordo “de forma muito positiva”, porque “deverá tornar menos onerosa a importação de produtos”. “A eliminação gradual de barreiras tarifárias levará a uma maior eficiência de custos às operações da Yara no Rio Grande do Sul e no Brasil.”
O acordo Mercosul-Efta
Segundo o governo federal, a Efta eliminará 100% das tarifas de importação dos setores industrial e pesqueiro quando o acordo entrar em vigor. Produtos agrícolas exportados pelo Mercosul terão acesso preferencial ao mercado do bloco europeu, com comércio sem tarifas ou por meio de concessões parciais.
O países do bloco sul-americano, por exemplo, terão livre-comércio com a Suíça em café torrado, álcool etílico, suco de laranja, fumo não manufaturado, melões, bananas, uvas frescas, amêndoa e manteiga de cacau. Por outro lado, haverá quotas para produtos como milho, carne bovina e vinho. O Brasil liberalizará cerca de 97% do comércio com a Efta.
As negociações entre Mercosul e Efta começaram em janeiro de 2017. Houve entendimento inicial em 2019. O anúncio, realizado na quarta-feira (2), permite a preparação dos textos do acordo para a sua posterior assinatura e ratificação.
Criada em 1960 como área de livre-comércio, a Efta é formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Os mercados dos blocos europeu e sul-americano somam cerca de 290 milhões de consumidores e PIBs de cerca de US$ 4,39 trilhões.
Estudos do governo federal estimam que o acordo pode gerar impacto adicional de R$ 2,69 bilhões no PIB brasileiro, com aumento de R$ 660 milhões em investimentos e incremento de R$ 3,34 bilhões nas exportações brasileiras
*Colaborou João Pedro Cecchini



