
No tempo em que as relações entre os presidentes dos Estados Unidos e do Brasil eram fluidas e até amistosas, Barack Obama chamou Luiz Inácio Lula da Silva de "my man", e o brasileiro virou "o cara", em tradução bastante livre. Foi em 2009 em uma reunião do G20 em Londres.
Dezesseis anos depois, Lula está de volta à presidência, mas o "o cara" nas relações com os EUA passa a ser o vice e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviço, Geraldo Alckmin. O político que já foi chamado por lulistas de "picolé de chuchu" agora terá de tentar descongelar as relações diplomáticas e comerciais entre os dois países.
A escolha é perfeita, por motivos institucionais e de personalidade. Presidente da República não faz em negociação comercial. Donald Trump, que anuncia cada tarifa em redes sociais e no Salão Oval, não participou da mais importante tratativa até agora, com a China. Foram à mesa, depois de um grupo técnico aparar arestas, os secretários de Comércio, Howard Lutnick, e do Tesouro, Scott Bessent, além do responsável pelo United States Trade Representative (USTR), Jamieson Greer.
Dois desses personagens já estiveram em reuniões com Alckmin até agora, como relatou à coluna o consultor Welber Barral e confirmou ontem o próprio. Agora, foi empoderado pelo decreto que regulamenta a Lei de Reciprocidade Econômica, que cria o Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais, composto pelo Mdic e pelos ministérios da Casa Civil, da Fazenda e das Relações Exteriores, com participação de empresários em comissões.
Foi um alívio para os setores que dependem de êxito na abertura das negociações pós-tarifaço de 50%. Tinha de ser Alckmin por ser a "contraparte", ou seja, ser do mesmo nível hierárquico dos interlocutores. Além de ter o cargo certo, Alckmin é a pessoa certa: não se conhecem episódios em que tenha escorregado nas palavras. Ao contrário, deve seu apelido à tendência natural de usar muitas palavras para dizer pouco e aparar arestas.
Em reunião nesta terça-feira (15) com empresas e entidades para discutir medidas em relação ao tarifaço de Trump, Alckmin destacou a necessidade de "conjunto":
— Importante a participação de cada uma e de cada um de vocês, nas suas áreas específicas, para fazermos o trabalho em conjunto. O governo brasileiro está empenhado em resolver essa questão. Queremos ouvir as sugestões e propostas de cada uma e de cada um de vocês.
Nesta curiosa terça-feira, Alckmin enfrenta a "concorrência" do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que também convocou reunião com empresários e o encarregado de negócios da embaixada dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar. Assim como presidentes, nem governadores nem o segundo escalão das representações diplomáticas costumam se envolver em negociações de alto nível. Por isso, os titulares foram a Brasília e representantes, a São Paulo. Então, ao menos por alguns dias, "o cara" agora é Alckmin.
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