
Uma decisão anunciada na manhã desta quarta-feira (25) reforça temores de especialistas em energia nuclear: embora tenha o discurso menos sustentável de vitória entre os três envolvidos na "guerra dos 12 dias", o Irã pode impor uma grande derrota ao mundo: a da segurança nuclear.
O parlamento iraniano aprovou a suspensão da cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão de supervisão nuclear da ONU. A alegação é de que, ao não condenar o ataque às instalações nucleares do país. iranianas, o órgão comprometeu sua credibilidade internacional.
Embora houvesse reportado dificuldade de fazer inspeção mais detalhada no Irã, a agência tinha até agora controle estrito do chamado "inventário nuclear", ou seja, das quantidades de urânio e dos níveis de enriquecimento que entravam e saíam das unidades distribuídas no país, como detalhou à coluna Aquilino Senra, professor de Engenharia Nuclear da Coppe/UFRJ.
Caso a decisão do parlamento seja efetivada – é bom lembrar que o legislativo iraniano também aprovou bloqueio ao Estreito de Ormuz, que não se concretizou –, o Irã pode se somar aos países com arsenal atômico sem fiscalização da AIEA, como Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. Assim como a ameaça de fechamento da "artéria do petróleo", essa poderia ser usada para alguma negociação.
É graças ao trabalho da AIEA no Irã que se conhece a existência de 400 quilos de urânio enriquecido a 60%. Donald Trump afirmou nesta quarta-feira (25), na reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que ao "obliterar" – que ele usou no sentido de fechar saídas – as instalações, o material teria ficado enterrado, sem acesso.
Especialistas em energia nuclear, porém, advertem que pode ter havido tempo para remoção desse urânio. A explicação é que, como o urânio enriquecido é um muito pesado, o volume dessa quantidade não é grande, e poderia ter sido transportado em "duas ou três vans" antes da operação Martelo da Meia-Noite.
Para entender os riscos do Irã
- Até a guerra, o país era inspecionado pela AIEA, que inspecionava quantidade de material e nível de enriquecimento de urânio.
- Na natureza, o urânio só tem 0,7% de seu isótopo mais energético, o 235. Para gerar energia, é preciso enriquecer a 5%, para produzir armas nucleares, a 90%. Conforme a AIEA, o país havia alcançado 60%. O enriquecimento de urânio é semelhante ao aumento da octanagem da gasolina, que eleva a potência do combustível.
- O ataque dos EUA no sábado à noite teve foco em instalações de enriquecimento, como Natanz e Fordow. Trump assegura que a segunda, protegida a 90 metros de profundidade, teria ficado sem acesso à área de enriquecimento.
- Especialistas em energia nuclear dizem que o impacto do bombardeio pode ter inutilizado as sensíveis centrífugas usadas para obter maior concentração de urânio 235, mas não descartam que 400 quilos de urânio enriquecido tenha sido retirado a tempo.
- Nesta quarta-feira, o parlamento iraniano aprovou a suspensão da cooperação com a AIEA, que encerraria as inspeções a instalações nucleares, como ocorre em países como Coreia do Norte, Índia, Israel e Paquistão.



