
Começou com um rumor, que acabou sendo confirmado neste final de semana: o polêmico empresário Nelson Tanure, conhecido por comprar empresas em dificuldade, fez uma proposta à Novonor (ex-Odebrecht) para assumir o controle da Braskem, dona da maior parte do polo petroquímico de Triunfo.
Em nota (veja íntegra abaixo), a própria Braskem informa sobre o negócio entre a sua controladora atual e o fundo Petroquímica Verde, de Tanure. Conforme o texto, se trata de um "proposta não vinculante", ou seja, ainda não definitiva. Mas afirma existir "obrigação de exclusividade para a negociação dos termos e condições da proposta".
Ainda segundo o comunicado, o fundo de Tanure se tornaria "titular indireto de participações societárias que representem o controle da Braskem". Para avançar, o negócio depende de duas aprovações: da Petrobras, sócia da Novonor da Braskem, e dos bancos credores da Novonor, que têm ações da petroquímica como garantia. Só depois – e caso seja confirmado – é que será submetido a outras avaliações de praxe, como a do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Atualização: conforme o colunista de O Globo Lauro Jardim, o que ajudou na aceitação da proposta pela Novonor foi uma injeção de R$ 100 milhões por Tanure em outra empresa da controladora (não informada) e a manutenção de uma fatia de 4% na Braskem (prevista também em outros arranjos).
Quem é Nelson Tanure
Nelson Sequeiros Rodriguez Tanure nasceu em Salvador (BA), em 1951. Filho de um comerciante libanês, fez carreira no Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido por comprar empresas quebradas ou endividadas, que buscar recuperar por meio de reestruturação financeira e novos investimentos. Já teve atuação em Oi, Gafisa, Light e além de pequenas empresas do setor de petróleo e infraestrutura. Nos anos 2000, ganhou visibilidade com a compra de jornais como o tradicional Jornal do Brasil e o arrendamento da Gazeta Mercantil.
Embora seus negócios sejam quase sempre barulhentos e, não raro, sofram disputas judiciais, Tanure tem perfil discreto, raramente concede entrevistas e atua por meio de fundos de investimento, como Société Mondiale, WTN e o Petroquímica Verde.
Atualmente, além do negócio com a Braskem, negocia a rede espanhola de supermercados Dia, com 246 lojas em São Paulo e avalia uma fusão com o GPA, grupo controlador das marcas Pão de Açúcar, que já foi de Abílio Diniz, e Extra, com cerca de 700 lojas no Brasil.
A íntegra da nota
A Braskem S.A. (...) vem comunicar aos seus acionistas e ao mercado em geral que, em função de notícias veiculadas na mídia a respeito do processo de venda da Braskem, solicitou prontamente esclarecimentos à Novonor, que informou o seguinte:
Prezados Senhores,
A Novonor S.A. – Em Recuperação Judicial (“Novonor”) vem comunicar a V.Sas. que recebeu, nesta data, proposta não vinculante (“Proposta”) enviada pelo Petroquímica Verde Fundo de Investimento em Participações – Multiestrategia (“Fundo”), veículo de investimentos detido pelo empresário Nelson Sequeiros Tanure, envolvendo as ações de emissão da NSP Investimentos S.A. (“NSP Inv.” e “Ações NSP Inv.”), e celebrou obrigação de exclusividade para a negociação dos termos e condições da Proposta.
Nos termos descritos na Proposta, com a transferência das Ações NSP Inv., o Fundo pretende se tornar titular indireto de participações societárias que representem o controle da Braskem S.A. (“Braskem”).
A Proposta está sujeita a avaliações e confirmações usuais em transações dessa natureza e segue sob análise da Novonor. Dentre outras condições às quais a Proposta está sujeita, destacam-se (i) o cumprimento das obrigações assumidas pela Novonor em relação à Petróleo Brasileiro S.A. – Petrobras (“Petrobras”) no âmbito do Acordo de Acionistas da Braskem; e (ii) a conclusão de maneira satisfatória de negociações com os bancos detentores das alienações fiduciárias das ações da Braskem detidas indiretamente pela Novonor.
A Novonor manterá a Braskem informada sobre eventuais avanços materiais nas discussões relacionadas à Proposta para que possa adotar as providências cabíveis em observância à lei societária e regras de governança aplicáveis.
Permanecemos à disposição para eventuais esclarecimentos.
Atenciosamente,
Novonor S.A. – Em Recuperação Judicial”.
O imbróglio da Braskem
A Braskem está à venda desde 2018. A companhia é controlada pela Novonor (ex-Odebrecht), que entrou em crise depois da operação Lava-Jato. A empresa privada tem 38,3% do capital total da Braskem e 50,1% das ações ordinárias, enquanto a Petrobras tem 36,1% do e 47% das ordinárias.
O primeiro ensaio, em 2019, foi uma tentativa de evitar a recuperação judicial da então Odebrecht. Mas fracassou, por falta de transparência na avaliação dos passivos por danos na mineração de sal-gema em Maceió (AL). Não por acaso, o pedido de RJ veio 15 dias depois.
Desde então, a Braskem fez sucessivas reavaliações sobre suas despesas com indenizações a moradores, à prefeitura da capital alagoana e ao governo do Estado. Atualmente, está por volta de R$ 18 bilhões. Ainda houve uma tentativa de venda à estatal de petróleo de Abu Dhabi, a Adnoc, que também não avançou. A tentativa anterior mais recente havia sido uma negociação entre os bancos credores da Novonor para executar a dívida com garantia nas ações da Braskem e passar a gerir a empresa a partir do fundo Geribá, que já foi controlador da Polo Films, uma das raras empresas do polo que não pertence à Braskem.






