É pura coincidência que vitória e vacina comecem com a mesma letra em várias línguas. No futuro, talvez esse Dia V, em que a humanidade começou a ser imunizada contra a pior pandemia em ao menos um século, venha a ser tão celebrado quanto o Dia D, quando os aliados começaram a derrotar um dos projetos de poder mais sanguinários da história.
Na véspera, o presidente Jair Bolsonaro considerou relevante inaugurar uma exposição de roupas de sua posse. Também é um acontecimento histórico, cujo peso ainda está por ser definido. Mas mesmo depois do anúncio do aguardado plano nacional de vacinação, os brasileiros ainda têm dúvida sobre qual a prioridade que o Planalto dá a esse tema.
Para um presidente que, desde os primeiros sinais de pandemia, relativizou os efeitos da covid-19 na saúde, mas magnificou o impacto sobre emprego e renda, vacinar a população deveria representar a reconciliação definitiva entre saúde e economia. Nos meios empresariais, não se fala em outra coisa. Aguarda-se a vacina como um marco definitivo. A atividade econômica, o comportamento humano e as relações com o poder terão um a.V. e um d.V. (antes e depois da vacina).
Também na véspera do Dia V, o Ministério da Saúde anunciou ter aberto negociações com a Pfizer para compra de 70 milhões de doses da vacina desenvolvida com a alemã BioNtech. Essa é a fórmula de maior complexidade logística, por exigir conservação a -75ºC, mas sob condições controladas é aplicável em grandes centros que administrem a manutenção.
Ainda na véspera do Dia V, o governador de São Paulo, João Doria, cravou uma data para início da vacinação com a fórmula da chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, em seu Estado: 25 de janeiro. Apesar da definição um pouco forçada, já que prevê apresentação e aprovação de licença na Anvisa em apenas 40 dias, permeados pelo final de ano, foi uma atitude alinhada com a aproximação de uma etapa decisiva da vida sobre a Terra.
Assim como é verdade que a vacina de Oxford é crucial para o Brasil, por seu baixo custo, adequação logística e outras vantagens já apontadas pela coluna, a melhor fórmula é poder contar também com as imunizações de Pfizer e BioNtech, Sinovac, Moderna, Sputnik V e qualquer outra que tenha eficácia e segurança comprovadas.
Se não fosse por outro motivo, Bolsonaro deveria priorizar a vacinação porque a imunização dos brasileiros reduzirá a pressão por prorrogação indefinida do auxílio emergencial, que consumiu os últimos meses da equipe econômica a ponto de quase inviabilizar a agenda de reformas. As roupas da posse poderiam esperar até o novo normal.





