Ao identificar lacunas nos testes para coronavírus disponíveis no Brasil, cientistas gaúchos se reuniram para desenvolver uma nova tecnologia. O resultado do trabalho é outro tipo de exame, que o laboratório Imunobiotech, de Porto Alegre, chama de ImuScov19.
Neste mês, a empresa registrou pedido de patente do teste no United States Patent and Trademark Office (USTPO), nos Estados Unidos. A tecnologia é capaz de identificar e quantificar a presença de anticorpos tipo IgG contra a proteína S, responsável pela entrada do coronavírus nas células humanas.
Fernando Kreutz, doutor em biotecnologia e um dos cientistas à frente do projeto, explicou à coluna que os criadores optaram por patentear no Exterior porque a prática de registro desse tipo de tecnologia não é comum no Brasil. Além disso, avaliam que o teste pode ter alcance global.
O registro se refere a características dos antígenos para detectar e/ou gerar anticorpos contra o Sars-cov-2 (nome oficial do tip de coronavírus que provocou a atual pandemia) e métodos, ensaios e vacinas relacionados. A patente pode ser estendida para outros países, incluindo o Brasil. Segundo Kreutz, foram realizados cerca de 10 mil testes de padronização da tecnologia:
— Logo no início da pandemia, identificamos problemas na nossa capacidade de produzir testes laboratoriais para detectar imunidade ao vírus aqui no Brasil. Havia dificuldade de acesso a matérias-primas, mas também estava tudo muito caro. A partir disso, mobilizamos parte da nossa empresa para desenvolver um teste. Decidimos iniciar a atividade em 20 de março e no final de maio já estávamos no mercado.
Inicialmente, o teste utilizou a proteína S viral importada. Depois, uma parceria com o Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares da Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), permitiu a substituição por material produzido no Brasil. Assim, toda a produção é nacional, o que viabiliza a fabricação de testes em grande escala. Atualmente, o laboratório tem capacidade de produzir 500 mil testes.
Kreutz explicou também como funciona o ImuScov19 e por que a solução é considerada inovadora entre os especialistas:
— Para detectarmos a presença de anticorpos, utilizamos pequenos fragmentos do vírus, o que chamamos de antígenos. Já a maioria dos testes disponíveis utiliza uma porção muito restrita de antígenos virais, que não representam a totalidade da resposta imune, como foi demonstrado nos estudos que levaram à nossa descoberta.
De acordo com cientistas, estima-se que 20% a 30% dos pacientes não desenvolveriam resposta imune contra o vírus. Entretanto, isso poderia estar relacionado com a forma de detecção da resposta, e não com uma falta de imunidade nos pacientes.
Para os criadores, a inovação tem a capacidade de modificar o paradigma de enfrentamento à pandemia, uma vez que pode identificar indivíduos que apresentam imunidade e, portanto, poderiam retornar a suas atividades com mais segurança.
A principal diferença do ImuScov19 em relação a outros testes é que a maioria identifica a resposta de anticorpos contra a proteína N do vírus causador da covid-19, substância que se encontra no interior do coronavírus. Esse tipo de teste sinaliza que a pessoa teve contato com o micro-organismo. Porém, não dá informação sobre a imunidade contra a covid-19.
O teste está disponível no mercado. Em Porto Alegre, pode ser encontrado no Laboratório Mont'Serrat. O custo do exame é de R$ 250. Segundo Kreutz, uma parceria com a Feevale está sendo estudada. A universidade poderá processar testes vindos de todo o Brasil.
TIRE SUAS DÚVIDAS
Como funciona o teste?
O teste é realizado a partir de uma amostra de sangue, analisada em laboratório, determinando e quantificando a presença desses anticorpos que reagem contra a proteína S.
Qual é a diferença deste teste em relação aos testes rápidos?
Os testes rápidos produzem resultado a partir da identificação de anticorpos contra a proteína N do coronavírus. Mostram que houve contato com o micro-organismo, mas não garantem que há imunidade contra a covid-19.
*Colaborou Camila Silva



