
Depois da Copa do Mundo monopolizar as atenções, começou outra copa: os comentários sobre o filme A Odisseia de Christopher Nolan. O filme me empolgou tanto quanto Gana versus Panamá.
A obra não nos entrega um herói da Idade do Bronze. Esse Ulisses é atormentado pela culpa – um sentimento moderno, introspectivo -, projetando no passado uma noção cristã de pecado que não existia naquela sociedade. Um grego homérico sentiria vergonha, essa sim uma emoção social e pública, ligada à honra diante dos pares, nunca o peso de uma consciência pesada.
O professor Claudio Moreno fez um comentário preciso quanto às personagens femininas: o problema é a misoginia de Nolan. Fora Penélope, as personagens femininas, que na tradição épica carregam complexidade, poder e desejos, aqui são reduzidas a figuras planas, coadjuvantes da angústia masculina. A poderosa Atena – deusa dos olhos brilhantes –, no filme tem o entusiasmo de uma adolescente deprimida e gripada. A obra de 28 séculos atrás é mais feminista que a atual.
A parte super-herói Marvel ficou por conta de Agamenon, uma mistura de Batman com Darth Vader. O filme se insere numa tradição americana de narrar os traumas de guerra de seus soldados. No caso, exportando para o Mediterrâneo antigo o mesmo olhar culpado que Hollywood dedica às intervenções militares dos Estados Unidos no exterior. Algo como: veja nosso sofrimento matando inocentes e destruindo o país dos outros.
O filme reclama uma decadência, o fim de uma civilização. É cômico ouvir diálogos mencionarem o fim da "Era do Bronze", uma categoria historiográfica do século XIX. Essa decadência não é a do mundo homérico, é a projeção melancólica da potência americana que sente seu próprio ocaso. O resultado é uma obra demasiado prisioneira de seu tempo, mais preocupada em ser politicamente correta do que contar uma história.
Um clássico atravessa os séculos porque continua a nos dizer algo novo a cada época. Essa Odisseia, saturada de ansiedades contemporâneas, ganhará Oscares, mas dificilmente terá futuro – nasceu datado.
Se começamos com copa, o filme é como a seleção Argentina, vai longe, chega na final, mas para fazer uma pataquada.



