
Existe conversa sobre política, costumes, fofoca, futebol, enfim, infinitos são os assuntos dos quais podemos falar. E existe a conversa “não conversa”, como por exemplo sobre o tempo. Temos os clássicos: vai chover? Que calor! São falas quebra-gelo, para preenchimento do vazio. São conversas fáceis, que qualquer nativo domina.
Por melhor que seja o orador, ninguém domina todas as possibilidades de fala. Há quem seja faixa-preta em fofoca e capenga em futebol, quem discorra sobre política com fluência e derrape ao falar de um filme. Mas, entre tantos temas possíveis, existe um que se destaca pelo grau de dificuldade, a prova olímpica da conversação: falar sobre viagem.
Quando eu era criança — um pouco depois do fim do império asteca —, o terror da conversa sobre viagem era acrescido de slides. Num mundo não saturado de imagens, até que fazia sentido. Era a chance de ver paisagens e cenas exóticas, que não estavam disponíveis. As revistas da época eram três quartos preenchidas com fotos. Era o prenúncio da inflação de imagens que sofremos agora.
A tortura dos slides passou, mas escutar sobre viagem segue um porre. O problema é estrutural, por isso ela é a mais difícil das conversas e deveria ser ousada apenas por falantes altamente qualificados. O que está em jogo é a dificuldade da transmissão da experiência. A viagem forneceu intensas emoções ao viajante, a questão é que é difícil dar voz ao que foi vivido. Justamente por ser novo, carece de vocabulário.
A conversa sobre viagem tem uma irmã: a conversa sobre perrengues de viagem. Afinal, nunca falta uma mala ou um viajante extraviado. Essas tendem a ser mais leves, mais prazerosas, pois o vocabulário do infortúnio é simples, qualquer um domina. Ademais, traz embutida uma vacina: não tenha inveja da minha aventura, eu gozei, mas também sofri.
De qualquer forma, a descrição do perrengue é uma experiência. Como viajar é uma credencial de sucesso, as viagens entram na mostra de credenciais de status. É aqui que está a verdadeira fonte da chatice. Não sei vocês, eu não me interesso pelas medalhas no peito de alguém, mas sim pelo que ele consegue dizer de como as conseguiu.





