
Desde que perdi minha mãe, no começo de março, ando envolto em enxurradas de lembranças onde estou com ela. Minha recordação mais remota, ao redor dos três anos, é dela usando um microscópio. Estou rente ao chão, de onde as crianças enxergam o mundo, ela está trabalhando sentada em uma escrivaninha e não percebe que estou ali.
Apesar da forte emoção ligada a essa cena, a memória é falsa. Se eu me vejo na cena, como se visse uma fotografia, só pode ser uma criação da minha cabeça. Na psicanálise isso se chama de lembrança encobridora. Embora falsas, elas dizem algo da nossa verdade.
Depois de anos de análise, me dei conta do óbvio. Se minha mãe está olhando para o microscópio, não está olhando para mim. Existe outra coisa que atrai sua atenção: ela não tem olhos só para seu rebento. Dessa vez, o primeiro filho, primeiro neto, ficou em segundo plano. Essa cena inventada é a marca que ficou do trágico momento onde descobri que eu não sou o único interesse dela. Além do meu pai, ainda havia o maldito microscópio para competir comigo.
Parece ser uma banalidade isso que ficou registrado na memória, mas o que importa é o afeto inconsciente, que é a parte principal no processo. No caso, um sentimento doloroso – eu não sou tudo para minha mãe –, que para não ficar solto, condensa o drama numa cena. Assim são as lembranças encobridoras, curtas e crípticas.
Tanto superei a situação que não guardei mágoa do microscópio. Ao contrário, de gostar da minha mãe, para gostar de microscópicos, foi um passo curto. Num laboratório, minha mãe era bioquímica, sempre há um modelo de microscópio antigo, com menos recursos, mas ótimo para um iniciante. O microscópio foi o mais sério dos meus primeiros brinquedos. Apesar da delicadeza do mecanismo, seu uso é simples e intuitivo. A dificuldade reside em preparar as lâminas, algo que aprendi imitando minha mãe.
Em algum momento da vida, olhamos para o céu noturno e nos impressionamos com a imensidão, o abismo do tamanho da nossa galáxia, do infinitamente grande. E somos apenas uma galáxia entre milhões de outras. O microscópio me levou para um caminho contrário ao habitual – meu primeiro fascínio foi com o infinitamente pequeno. Descobrindo o tamanho das bactérias soube que nós somos gigantes, absurdamente gigantes. Um centímetro quadrado da nossa pele pode ter milhões de bactérias.
Os microscópios nos aproximam do micromundo, os telescópios do macromundo, mas ainda não inventaram algo que nos mostre o mundo dos que já se foram. Quanto à minha mãe, ora parece estar imensamente longe, ora imensamente perto. Ora me sinto acompanhado, ora imensa e infinitamente só.


