
A psicanálise brasileira falhou em não definir teoricamente um estado de espírito peculiar, que mostrar-se-ia útil até como contribuição nossa para uma nova categoria nosográfica ao Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Trata-se do "estar jururu", que não pode ser confundido, como amiúde se tem feito, com "estar borocoxô".
Quem está jururu sofre de uma tristeza mansa. Trata-se de uma ferida já amaciada, uma dor conhecida. Quando já não dói tanto, mas é preciso mastigar essa tristeza um pouco mais, para poder guardar na memória sem perturbar a paz do resto do ego. Trata-se de uma afecção não mórbida e necessária. Afinal, não existe vida sem perdas.
Quem está borocoxô precisa de ajuda. Esse estado já está no guarda-chuva das entidades depressivas. Não se trata do estado crônico de estar jururu, pois isso é justamente a melancolia. No borocoxô a lembrança pesada não é repassada para assimilar, mas para reviver um passado que não se abre mão. Por isso ele também é sorumbático — escolhe viver na sombra.
Estar jururu só é um estado preocupante quando há alternância frequente com o lado oposto, a saber, "estar com siricutico". No caso, em qualquer dos graus do siricutiquismo, ou seja, tanto o faniquito, quanto o piripaque, ou ainda, o chilique.
Precisamos estabelecer uma semiologia precisa destes quadros, sob risco de iatrogenia cultural. O que nos interessa é saber quando deixamos o vivente em paz com sua dor e quando devemos intervir. Se ele está lambendo as feridas, ou se mordendo ainda mais.
Ambos são egosintônicos, o sujeito está em harmonia com seu estado. Do estado jururu saímos sozinhos, é uma passagem necessária, há uma tristeza residual inevitável na vida. É preciso não condenar, nem medicalizar a infelicidade inerente aos tropeços que o destino nos inflige.
Saber a diferença entre a tristeza e a depressão não é simples. Sugiro um termômetro que não falha. O depressivo joga coisas fora. Não quaisquer, vão para o lixo as melhores coisas que ele tem: reputação, relações, amigos, empregos, oportunidades, curiosidade intelectual, dons artísticos, bens e até dinheiro. A depressão é um projeto de auto apagamento.
Deixe quem está jururu em paz, mas estenda a mão para quem se mata em prestações.





