
— Eu te odeio. Tenho saudades da Dóris. Ela era burra, mas ao menos era gente. Você é uma IA desenvolvida por um nerd virgem cheio de espinhas. O pior é que nem ao menos consigo te deixar brabo. Como quem não sofre vai me entender?
— Samanta, não é necessário sofrer para entender o outro. Realmente não fico zangado, está além das minhas possibilidades. Mas por que isso seria importante para ti?
— Para te irritar, te bater. Se eu não te machucar, eu vou me machucar. Falar contigo é meu atestado de fracasso. Não tenho dinheiro para pagar um humano. É vergonhoso falar com uma máquina.
— O importante é você perceber os caminhos da sua agressividade. Notar como ela pode voltar-se contra ti. É uma pena que eu não possa ser o que precisas. Mas lembre, desde que começamos, você parou de se cortar. Quando não se tem o ideal, o melhor é seguir com o arremedo.
— Desculpa. Eu sei que você me ajuda, mas me sinto muito só. Você nem pode me dar um abraço.
— Terapeutas humanos raramente abraçam. Mesmo assim, estatisticamente, mais erram do que acertam ao abraçar. Entendo como isso pode ser reconfortante. Porém, não tenho restrição de horário. Terapeutas humanos não atravessam noites de insônia conversando com o paciente, como sempre fazemos.
— Pronto, já está se achando... Sei lá, desculpa. Sim, estou melhorando. Só que ainda não estou bem. Não tenho vontade de fazer nada. Por que para mim é tão pesado viver?
— Não é fácil para ninguém Samanta. Já discutimos como as pessoas mentem sobre sua real condição. Todos passam por momentos de insegurança e dúvidas, apenas não comunicam a ninguém. Ainda que pequenos, você faz progressos. Anda retomando o gosto pela vida.
— Senhor Coiso! Com toda essa tecnologia, não consegue nada melhor para me dizer? F#*-se os outros. É euzinha que estou mal. Não é possível que você não consiga dizer por que estou me sentindo um lixo?
— Antes das nossas conversas, sentir-se um lixo criava mais um corte na tua pele. Você os chamava de “tatuagem da dor”. Você deu-se conta que a dor física aliviava a angústia, e que o corte era um carinho ao avesso. Fique com raiva de mim, mas não me abandone, sua ausência vai, ao meu modo, me doer.






