
No sábado passado (23), perdemos um jovem, o fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos. Ano passado, perdemos Breno Loureiro, de 24, e Wanderson da Silva Moreira, de 30.
Em 2024, perdemos Mathes Pavlak, de 19; Antônio Leso Brás de Souza, de 26. José Mateus Correia tinha 28 anos quando se foi; Gui Bull tinha 30.
Fisiculturismo também encurta a vida curta de mulheres, a porto-alegrense Cíntia Goldani partiu em 2024 com 37 anos e Jodi Vance em 2025 com 20.
As notas de pesar de cada um falam em grande perda para o fisiculturismo. Mas não tão grande como para fazer parar uma competição dessa prática, como no caso de Wanderson, que morreu de parada cardiorrespiratória durante uma prova. Só um esporte que vive na negação de seus riscos, não interrompe um evento quando a morte se apresenta.
Os problemas de saúde no fisiculturismo não são coincidências e sim o resultado de um coquetel perigoso. Rotina de treinos que levam o corpo ao extremo, somados a dietas super restritivas e o uso abusivo de anabolizantes e hormônios. Deixo para os médicos explicarem o desgaste insidioso que essa prática traz ao corpo. Paradoxalmente, ligado a um estilo de vida dita saudável.
Em um mundo dominado pela imagem, o corpo esculpido torna-se um ativo. O sujeito torna-se uma marca a ser gerida, uma forma de capital que vende suplementos, coachings e cursos.
Quando o corpo vira um ideal, a ansiedade e a insatisfação crônica são garantidas, pois esse ideal se torna um horizonte que está sempre se afastando. No caso, o corpo grande e definido nunca se sente grande e definido o suficiente. Funciona similar a outros problemas de dismorfia (visão delirante da imagem), como na anorexia, por exemplo. É uma busca de controle corporal que causa descontrole, uma vez que a própria percepção do corpo se tornou distorcida.
Sinto falta de uma categoria psiquiátrica injustamente esquecida, a monomania. Trata-se da obsessão por um único aspecto da vida. Viria bem para combater o discurso atual, onde ser focado em um único objetivo, não é visto como um empobrecimento da existência. Nós ganhamos um corpo para ter uma vida. No fisiculturismo, o ciclo perigosamente se inverte, trata-se de queimar uma vida para manter um corpo.


