
Quando encontraram os pergaminhos do Mar Morto, junto estava o pergaminho do marqueteiro. Escritos de um sujeito contratado para dar umas dicas sobre o cristianismo nascente:
— Gostei da concepção geral, nova religião sempre tem futuro e esse Jesus tem carisma. A mensagem é maravilhosa: amar o próximo, perdoar e todos são iguais perante a Deus. Porém, não posso deixar passar uns detalhes.
Primeiro a cruz como símbolo central da religião. Pega mal, lembra morte, é um instrumento de tortura. Quem vai botar no pescoço uma cruz? Invistam no peixe. Peixe é neutro e simpático.
Depois temos a questão do nascimento. O pessoal gosta de luxo, como que vai ter empatia com alguém que nasceu numa manjedoura. Apaguem essa parte do presépio.
Esse lance do Pai, Filho e Espírito Santo como um só é confuso. No rascunho, vocês colocaram uma pomba para representar o tal Espirito Santo. Isso já mostra que é confuso até para vocês.
Se entendi bem, Jesus não deixou nada escrito, vale o que disseram seus discípulos? Será que não vai dar conflito de fontes? Minha ideia é pegar o melhor evangelho e descartar os outros.
Esse negócio de “dar a outra face” é lindo no papel, mas na prática é um suicídio de imagem. Seu público-alvo vai ser oprimido, perseguido e jogado aos leões. E aí você sugere que eles não revidem? Tem que ter um discurso de empoderamento. Vamos mudar para “revida com amor” ou algo assim.
Bebam do meu sangue! Isso é muito pesado para uma família que leva as crianças no culto. Sugiro trocar por pão e mel.
A escolha dos apóstolos também é problemática. Doze caras? Nenhuma mulher? E ainda por cima com um traidor. Isso passa a mensagem de que o produto falha na curadoria de equipe.
O inferno precisa de ajustes. O castigo eterno é forte demais para o posicionamento de “Deus é amor”. Vocês estão criando uma dissonância cognitiva enorme.
Vocês andam se reunindo em catacumbas é deprimente. Proponho investir em espaços arejados, com boa iluminação.
Com esses ajustes, acredito que o cristianismo pode decolar. Se seguirem meu plano, em 300 anos dominamos o Império. Mas se insistirem nesses detalhes mórbidos e confusos, vai ficar uma seita de nicho, no máximo.

