
O tenente-coronel da PM paulista, Geraldo Neto, está preso. É acusado de matar sua esposa, a soldado Gisele Alves, com um tiro na cabeça e depois forjar ter sido suicídio. Na recuperação das mensagens de celular, ele se referia a si mesmo como macho alfa e queria que sua mulher fosse uma fêmea beta obediente e submissa. De onde o tenente-coronel tirou esse vocabulário peculiar?
O conceito de macho alfa foi popularizado por David Mech, um americano especialista em lobos. Anos depois, ele mesmo escreveu que estava errado. Os lobos não exercem dominância agressiva e são hiper cooperativos entre a matilha. Os lobos só são agressivos entre si em cativeiro.
O primatologista Frans de Waal também tentou corrigir a percepção distorcida, esclarecendo que em primatas a liderança depende prioritariamente de apoio e inteligência social, e secundariamente de força. Ainda, as alianças para alcançar o poder passam também pela aprovação das fêmeas. A ideia de um macho agressivo, que mantém o poder pela força bruta, diz mais da ideologia humana do que de biologia.
A comunidade científica absorveu a crítica, mas o mito do “lobo alfa” permaneceu na cultura popular. E pior, migrou para o comportamento humano, sendo usado para vender uma narrativa de que homens "alfa" seriam naturalmente agressivos, competitivos, promíscuos e líderes incontestáveis, enquanto os "betas" seriam submissos e fracassados.
Nas últimas décadas, transformações sociais como o avanço do feminismo e a perda de privilégios historicamente masculinos, geraram o que muitos autores chamam de crise da masculinidade. Diante da insegurança sobre o que significa ser homem, certos movimentos buscaram na biologia uma suposta verdade imutável que justificasse a dominação masculina.
Na prática, essa distorção funciona como um proselitismo machista: tenta legitimar a hierarquia masculina como inevitável e escrita na natureza. Assim, a crise da masculinidade deixa de ser resolvida com autocrítica, reflexão ou novas formas de ser, e se transforma em um retrocesso autoritário. O "alfa" vira uma fantasia de poder, um escudo contra o medo de perder o controle. Ciência falsificada em auxílio de homens inseguros.




