
Permitam-me que lhes nomeie um diabo que vocês conhecem sem saber. Chama-se Titivillus, o demônio patrono dos erros de escrita. Nasceu na Idade Média. Habitava os cantos escuros das bibliotecas, onde monges copistas passavam a vida sobre pergaminhos. Sua missão era infernalmente simples e burocrática: criava distrações para perturbá-los e induzi-los ao erro.
Com o tempo, a invenção dos tipos móveis parecia ter exorcizado o demônio. Mas ele apenas migrou dos dedos trêmulos do monge para as caixas de tipos da oficina de Gutenberg. Agora, seu reduto é o tipo virado, a letra que falta na palavra crucial. O erro tipográfico tornou-se sua nova vocação.
Foi preciso chegar ao nosso tempo para que Titivillus encontrasse seu habitat definitivo. Hoje, ele dispensa tinta, chumbo ou pergaminho: instalou-se com discrição no corretor automático de nossos telefones e computadores.
É ele quem nos faz dizer: “estou comunista saudade”. “Deus te elimine”. “Orangotango” significa oremos todos. Certa vez, mandei uma mensagem para uma paciente chamada Priscilla. Depois dela rir muito, vi que estava escrito “bom dia Princesa”. Mais constrangido ficou um paciente da minha esposa Diana que mandou: “cara Diaba”. Uma conhecida recusou um convite por que ela estava no cio. Quando, na verdade, estava no Rio. Pior é que tentamos reclamar e sai: “maldito corredor do inverno!”
O corretor automático é a obra-prima de Titivillus, o templo onde ele recebe nossas oferendas diárias de nonsense digital. A ironia é que acreditávamos que a tecnologia eliminaria o erro. Mas o demônio, que antes agia por omissão ou cansaço, hoje se disfarça de assistente prestativo. Ele nos faz digitar o que jamais pensaríamos e envia essas bizarrices constrangedoras aos chefes, amigos e amores.
Titivillus segue vivo, não mais escondido nas sombras de um claustro, mas aninhado no coração das nossas interfaces, provando que o erro não é uma falha acidental da comunicação, é uma assinatura. A assinatura de um demônio que segue firme em sua missão de mostrar que, por mais que nos esforcemos para controlar o sentido, sempre haverá um pequeno caos à espreita entre o que pensamos e o que realmente escrevemos.






