
Existiu um experimento, infelizmente pouco conhecido, que é uma lição de humildade para quem acredita em jornadas interplanetárias. Construíram uma biosfera, simulando nosso planeta, em pequena escala, para ser replicado futuramente em viagens espaciais, possibilitando alimentar a tripulação.
O projeto chamou-se Biosfera 2. Afinal, a biosfera 1 é a Terra. No Arizona, criaram um domo de vidro tecnológico, de 1,27 hectares, simulando biomas da terra. Elegeram oito cientistas (quatro homens e quatro mulheres), para viver encerrados por dois anos (1991 até 1993), sem trocas com o exterior.
É o incômodo do constante atrito social que cria a musculatura psíquica que faz alguém ser forte
Foi um desastre, eles passaram fome. Quebraram a regra do isolamento para receber oxigênio, nem nisso foram auto-suficientes. Se no nosso planeta não teriam conseguido sobreviver, imaginem em uma nave espacial.
Toda essa conversa é para falar de um detalhe do experimento: as árvores. Como elas cresceram sem vento, não desenvolveram lenho de reação, por isso caíam sob seu próprio peso. Depois de constatado, é algo óbvio, mas ninguém pensou nisso antes.
Conto essa história para dizer que é assim que hoje criamos nossos filhos. Os poupamos do vento da vida, daquelas experiências cotidianas de frustração, decepção e tristeza que são as que temperam nosso caráter. É o incômodo do constante atrito social que cria a musculatura psíquica que faz alguém ser forte.
Pais que vão para a escola para bater boca com o professor por avaliação, estão privando seus filhos do mundo real. Os filhos só são especiais para sua família e é preciso que eles saibam disso o quanto antes. Pais que controlam os livros, ou filmes, que seus filhos podem consumir, para não os “traumatizar”, estão criando um mundo artificial que não ajuda a criar anticorpos.
O vento não é um inimigo. É o escultor invisível que dá forma e força à árvore. As frustrações, os "nãos", as perdas e os conflitos são esse vento. Privar uma criança dele é como criar um ser num domo de vidro: parece seguro, mas é uma preparação para um mundo que não existe. O verdadeiro trauma não é sentir a dor do mundo; é ser lançado nele, na idade adulta, sem nunca ter aprendido a balançar e, por isso, cair sob o próprio peso de existir.





