
A ordem era da minha avó. Vinha solene como um mandado de juiz, não cabia recurso nem questionamento. A galinha já poderia se considerar morta. Era só uma questão de formalidade.
Ponha-se nas minhas pantufas. Eu era um menino do fim dos anos 50, ou eu resolvia a questão, ou eu viraria uma galinha. Em minha defesa: a malfadada galinha fora pega em flagrante e era reincidente.
Vamos ao contexto: minha avó tinha uma horta. Tínhamos couve, rúcula, abóbora, chuchu, cebolinha, salsa, maracujá, hortelã e cenoura. Todas as pragas eram controladas, menos uma: a gangue das galinhas do vizinho. Uma que outra pegou a manha de pular a cerca e fazer da nossa horta um buffet.
Vocês não acreditam o que uma só galinha motivada pode fazer em uma horta. É um trator emplumado. Como o Godzilla em Tóquio, nada fica de pé.
Minha avó fazia reclamações diplomáticas ao vizinho. Ele se desculpava, mas não resolvia o problema. Diante da falha das vias pacíficas, não lhe restou saída senão aplicação de sanções. Como ultimato, advertiu: a próxima galinha que invadir nosso espaço soberano vai para a panela. Assumimos o prejuízo até o momento, mas seria o último.
Naquele dia, recém tínhamos plantado mudas de rúcula. Ao chegarmos na horta, o canteiro era um deserto. Não longe dali, estava a mesma galinha da outra vez, como se nada, picotando nossas couves. Foi assim que surgiu a sentença capital.
Meu problema era pouca experiência como carrasco. Meus colegas achavam graça em matar passarinho com bodoque, eu era contra. Matar, para mim, só em caso de necessidade ou vingança – como nesse caso.
Voltando à vaca fria, (no caso, galinha morna) como diabos se mata uma galinha? Não tinha a mais vaga ideia, e não havia um Google para pedir um tutorial passo a passo. Teria que improvisar. Perguntar para minha avó já seria uma derrota.
Achei um pé de cabra da oficina do meu avô e considerei um instrumento apropriado. Sem mais detalhes. Hoje, pela experiência, não recomendo.
O que aprendi como lição, e queria compartilhar: encontrar galinhas no supermercado, já abatidas, cortadas e depenadas, é uma grande conquista civilizatória.




