
— Mãe, não é hora de postar — disse uma das filhas.
Um minuto depois, a outra filha pediu:
— Mãe, deixa para postar da pousada.
Mas a mãe não ficou convencida. Travava a marcha da família para registrar suas fotos em alguma rede social. Ao contrário das adolescentes, o pai parecia conformado com o comportamento introcelular obsessivo da esposa.
Tanto quanto pude, de longe, acompanhar a trupe familiar, a tensão seguia a mesma: a família tentando resgatar a mãe de dentro de seu celular, para estar com eles, enquanto costeavam a borda do cânion Fortaleza em Cambará.
A visibilidade estava ótima, qualquer um dos cânions da região oferece um espetáculo botânico e geológico. É compreensível a exasperação de qualquer um com quem, estando ali, onde a natureza é generosa, esteja mais ligado a uma tela.
Pelo humor das filhas, temi que as mesmas estivessem a ponto de proporcionar à mãe a emoção de como é ser lançada da borda de um penhasco. Nesse caso, como é alto, certamente a mãe conseguiria fazer sua postagem definitiva, do voo inesperado, antes de esborrachar no chão.
Se tivesse intimidade com a família, teria dito às duas adolescentes:
— Eu sei o que vocês estão pensando, não façam isso. Lhes imploro, atirem apenas o celular no precipício, poupem vossa mãe.
Pensando nessa senhora – que por sorte não foi arremessada –, o que move o postador maluco? Mostrar a todos que ele vive? Que acontece algo na sua vida? Que ele saberia aproveitar e gozar de bons momentos? E ainda, por que não pode esperar para postar depois? Qual é o demônio dessa ansiedade?
Por certo ele quer mostrar sua vida gloriosa ao grupo. Mas há algo a mais nesse tipo de postador, ele é alguém que não consegue estar ali. Se conseguisse fruir de fato, não haveria porque parar. Quem para, sofre por não conseguir gozar, nesse caso o sujeito de fato não está presente. Registra para ver se retém algo do que sente que deveria ter vivido.
O postador maluco é menos um exibicionista digital, do que um exilado da experiência. Sua urgência em registrar o momento é o sintoma de uma uma incapacidade de decodificar e metabolizar a realidade imediata. É alguém que esqueceu que se vive mesmo em três dimensões.




