
Mesmo embrutecido pelo noticiário, uma das tragédias da semana passada me bateu forte. Em João Pessoa, Gerson de Melo Machado, um adolescente em surto psicótico, morreu ao entrar na jaula de uma leoa. Pelo meu trabalho, já conheci inúmeros jovens assim. É possível que vocês também conheçam, existe muita gente vulnerável, em situação de rua, com problemas similares. São pessoas com doenças mentais que as deixam incapazes de cuidar da própria vida.
Gerson teve o diagnóstico de esquizofrenia, como sua mãe e sua avó. Foi criado em abrigo porque a família perdeu a guarda de todos os filhos. Ele foi o único não adotado. Sem familiares, quem cuida dele? A estrutura existente respondeu dentro do possível. O que o drama dele revelou foi uma falha na concepção desse sistema.
Os CAPS (Centro de Assistência Psico Sociais), por mais dedicados que sejam seus profissionais, são insuficientes para casos como o de Gerson. Afinal, são ambulatórios, não tem leitos e não funcionam 24 horas. Os antigos hospitais psiquiátricos estão em extinção — ainda bem, eram um modelo institucional falido —, mas estruturas intermediárias de instituição, que abriguem psicóticos em momentos de crise, ainda não foram criadas. Nem toda internação é abuso ou abandono, por outro lado, a liberdade sem suporte pode ser uma forma cruel de condenação. Alguns quadros psicóticos, mesmo com toda presteza e com uma família atuante, podem não ser revertidos; no sentido de que o sujeito volte a ter uma autonomia sobre seu destino e consiga cuidar de si.
Desde a maioridade, quando saiu do abrigo, Gerson procurava um lugar seguro. Teve várias passagens pela polícia e acabava na prisão. Geralmente criava um fato para ser preso, como atirar pedras nas viaturas. A Justiça, corretamente, dizia que a cadeia não era seu lugar. Mas qual seria o seu lugar? A ironia é que ele morreu num lugar gradeado, onde forçou a entrada. Não creio que seja uma metáfora de procurar ficar encerrando, mas sim de pertencer a um lugar do qual fosse difícil de sair, que o cuidasse e contivesse. Algum lugar que quisesse muito que ele permanecesse lá, porque então, seria o seu lugar. Cercado com barras de afeto e não de aço.






