
Fazer uma afirmação na esfera pública é caminhar em campo minado. Se disser, por exemplo: “eu gosto de gato, pois são excelentes pets”. Imediatamente serei julgado não apenas pelo que disse, mas pelo que deixei de dizer. Para evitar o fogo cruzado, é necessário abrir um ritual de desculpas e esclarecimentos.
Começa então a ladainha. Dado minha opinião sobre gatos, não quero dizer que não gosto de cães e de quem gosta de cães. Tutores de gatos não estão acima dos outros tutores. Vou mais longe, é preciso romper a aliança entre mamíferos. Aves, peixes, répteis, batráquios, quelônios e insetos podem ser bons pets.
Além disso, defendo que um pet imaginário, se satisfaz as carências de seu tutor, é um pet válido, e deve ser reconhecido como tal. Defendo também romper a barreira da vida, o inorgânico pode ser pet se alguém assim o quiser. Se fulano resolver ter uma pedra como pet, por que não? Vivo, morto, extinto ou moribundo, o pet correto é aquele que a pessoa quer dedicar seu afeto.
Mais uma questão, que fique claro que não defendo que ter pet é uma necessidade e tampouco esse costume define alguém. Não ter pet, nem sentir afeição a eles, é uma postura tão digna quanto ter. Em defesa dos humanos sem pets – salvo os de pets imaginários e inorgânicos –, trata-se até de uma opção mais ecológica. Menos rações significam menos plantações e menos criações de animais para abate.
Pegaram o jeito? Se falasse que gosto de Natal, teria que lembrar das outras religiões, da cor vermelha da roupa do Papai Noel, do consumismo capitalista, da omissão da Mamãe Noel, da exploração dos gnomos, dos direitos das vacas de presépio, e por aí segue o samba. A lista total é infinita.
Também temos textos que são exclusivamente sinalização de virtude. O leitor comum precisa entender que esse tipo de texto não tem nada de aproveitável, o que ele comunica é a suposta boa alma de quem escreve e de um nicho de leitores que lê. O único sentido desses textos é mostrar que o pensamento do escritor estaria alinhado ao melhor do pensamento progressista do nosso tempo. O que essas pessoas do bem não dizem, é que a intransigência feroz com quem discorda está no pacote.






