
Semana passada, a Santa Sé esclareceu o papel que Maria, mãe de Jesus, ocupa na doutrina e na tradição católica. Trata-se de uma tentativa de freio à veneração, exagerada segundos eles, que muitos católicos têm por Nossa Senhora. Temem que essa adoração roube o protagonismo que deveria caber à Santíssima Trindade. Só Eles seriam divinos e o caminho da salvação necessariamente teria que passar por Eles.
Na prática, ninguém está nem aí para essa conversa. Quem acredita na mística da Nossa Senhora, quem se comunica com o sagrado através dela, vai seguir nesse caminho. Também na semana passada, uma estátua de Nossa Senhora de Fátima foi inaugurada em Crato, no Ceará. Mede 54 metros de altura, para comparar, o Cristo Redentor do Rio mede 38.
Vamos ver como isso começou. O historiador George Duby fala do século XI como o século de ouro do culto Mariano. Com o avanço do cristianismo no norte da Europa, o culto a Maria e o culto aos santos, suavizaram a transição do paganismo para o cristianismo. O culto mariano incorporou elementos das estruturas mentais preexistentes de uma deusa mãe ligada à terra, à natureza e à fertilidade.
O culto a Maria foi uma necessidade de expressão do divino feminino. Para uma cultura acostumada a recorrer a deusas para assuntos como fertilidade, proteção do lar, parto, amor, uma religião sem essa dimensão seria sentida como uma perda espiritual profunda. As religiões sempre tiveram deusas, o monoteísmo judaico, e as religiões derivadas dele, são uma exceção.
Na medida em que rezamos "em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo", não parece que seja – ainda que possa a ser –, que Deus seja uma figura neutra, acima das nossas humanas representações de gênero.
Vocês conseguem imaginar Deus ressentido – feito um deus grego –, porque pessoas piedosas, que seguem os mandamentos, procuraram a salvação através de Maria? Ou então um Deus burocrata, que analise por qual corredor alguém chegaria ao céu?
A religião é uma resposta ao desamparo cósmico que sentimos, uma busca de sentido para a existência. Foi no colo de uma mulher que nascemos para o enigma da vida, não estranha que o busquemos quando a angústia nos ameaça.





