
Eu queria ter 16 anos. Voltar aquele dia na escola em que fui hostilizado por ser gay. Queria não me importar com o que ouvi, voltar para casa sem chorar. Teria ignorado os comentários, não faria diferença nenhuma revidar. Meu cabelo na época era mais bagunçado, eu tinha espinhas no rosto, capinha de celular colorida. No meu mp3 tocavam as músicas da Avril Lavigne.
Queria voltar aos 9 anos. Naquela época eu engordei um pouco e acabei ficando com uma barriguinha que me causava vergonha. Vi uma foto antiga daquela temporada de praia e lembrei na hora que eu evitava tirar a camiseta.
Mas seu eu pudesse ter, de novo, 14 anos e retornar ao dia que ganhamos um computador em casa, certamente eu imprimiria menos folhas coloridas porque gastei um cartucho inteiro de impressão logo na primeira semana. Também não perderia o sono esperando dar meia-noite para navegar na internet, se eu soubesse que no futuro eu faria de tudo para usar menos o celular.
Eu queria voltar aos 20 anos de idade. Era meu último ano na universidade. Eu me dedicaria ainda mais, mas não teria tanto receio de jogar pro mundo as minhas ideias. Demorei para criar coragem de fazer do jeito que eu acredito.
Talvez eu também voltasse aos meus 25 anos pra me cobrar menos por estar longe da minha família. Naquele ano, morando a quase mil quilômetros de distância dos meus pais, não consegui chegar a tempo no velório da minha avó. Também não acompanhei a gravidez da minha irmã.
Se eu pudesse voltar no tempo seria mais bondoso comigo. Teria me priorizado em muitos dos momentos que deixei de fazer o que eu queria para agradar os outros. Também não me culparia tanto por decepcionar os outros.
Em 1998 eu aprendi a andar de bicicleta sem usar rodinha num Domingo de Páscoa. Era um dia de sol, minha bicicleta era azul com detalhes em verde. Cai várias vezes naquele dia, mas por sorte estava vestindo um moletom fininho que protegeu um pouco meus braços. O vento batendo no meu rosto foi a recompensa do esforço.
Até tive outra bicicleta na adolescência, mas que foi aposentada em algum momento que não lembro bem. Nesse ano descobri uma maneira de viajar no tempo! Voltei a ter sete anos desde que comprei uma bicicleta.
De um jeito ou de outro a gente consegue se conectar com o passado. Seja pra curar feridas ou pra lembrar quem somos de verdade.






