
Outro dia esbarrei novamente naquela frase que vive rodando pela internet: “faça só o que você ama”. E olha, eu até acho bonita, combina com um pôr do sol e uma música calma. Mas a vida real… bem, a vida real não funciona assim. E tudo bem.
Não estou falando só de trabalho, que já vem com seu pacote completo de expectativas e responsabilidades. Estou falando das pequenas coisas, aquelas que ninguém posta no feed. Vou contar algo que sempre surpreende quem me conhece: eu não gosto de ler.
Pois é. Não amo, não me acalma, não me deixa suspirando. Sou inquieto: ficar parado muito tempo me dá uma coceira invisível. Mas sabe o que acontece? Eu leio. Leio bastante, até. Porque eu descobri que não gostar de algo não significa que aquilo não tenha valor para mim.
E isso vale para várias atividades da minha vida: passar roupa, malhar todo dia, arrumar as coisas… nada disso entra na categoria “amo fazer”. Mesmo assim, eu faço. Porque algumas tarefas fazem diferença, mesmo sem serem emocionantes.
A gente vive uma época que insiste em transformar tudo em entusiasmo. Como se gostássemos de absolutamente tudo o que fazemos. Como se todo dia fosse incrível, produtivo e especial. Mas a verdade é bem mais simples: a rotina existe. E ela é feita de momentos animados, momentos neutros e alguns momentos que a gente só atravessa.
E está tudo certo com isso.
Nem toda tarefa precisa ser apaixonante para ser importante. Nem toda parte da vida precisa brilhar para valer a pena. Às vezes, a graça está justamente nesse equilíbrio entre o que encanta e o que apenas sustenta.
No fim das contas, entre fotos bonitas e dias comuns, está a nossa vida com suas obrigações, seus prazeres e também suas pequenas resistências. E tá tudo bem não amar tudo. O importante é seguir, sem a cobrança de transformar cada passo em espetáculo.


