
A primeira vez que li a palavra “confiança” foi numa esquina de Caxias do Sul. Lembro bem do letreiro simples, verde e branco. Ali havia uma farmácia que levava esse nome e aquele era o lugar “parada obrigatória” quando ia junto com a minha mãe para o centro. O objetivo era subir na balança, que não era digital, mas tinha um ponteiro enorme e que revelava o peso para qualquer pessoa que estivesse dentro do estabelecimento.
Era, na minha cabeça, a balança confiável da farmácia confiança. Por mais de dois anos estagnei nos 21 quilos e essa era uma preocupação séria na minha casa e que me rendia doses diárias de biotônico Fontoura.
Depois de crescer aprendi, de fato, o significado e toda a importância que a confiança tem em nossas vidas, relações e na sociedade. Mas não há dúvida que o parâmetro, no meu caso, sempre será a confiabilidade agregada aquela balança da minha infância. Afinal pegava ônibus, caminha um monte só pra ver se havia, enfim, chegado aos 22 quilos num equipamento já rudimentar nos anos 90. Além de nós outros tantos moradores da cidade depositavam a confiança da verificação do seu peso corporal a balança da farmácia confiança (que já não existe mais há muitos anos).
Assim como aquela farmácia fechou, a confiança no Brasil tem se tornado item difícil de achar por aí. Há menos de um mês aconteceu a divulgação dos resultados do ICS — índice de confiança social, do instituto IPSOS-IPEC. O resultado é um alerta: registramos o menor índice de confiança nas instituições desde 2018.
Isso quer dizer que nós estamos depositando menos certezas e mais dúvidas em órgãos e instituições fundamentais para o funcionamento da sociedade e para a democracia. Veja só que curioso: na ponta de cima está o Corpo de Bombeiros, como instituição mais confiável. Fecham o Top 5: igrejas, escolas públicas, Polícia Federal e as Forças Armadas.
Na ponta de baixo, com as intuições de menor índice de confiança da população estão: o Ministério Público, sistema eleitoral, poder judiciário, congresso nacional e, fechando a porteira em grande estilo: os partidos políticos.
A pesquisa fala com os dados. É uma fotografia da opinião pública brasileira em julho de 2025.
Ainda sobre a falta de confiança no mundo de hoje, tenho outra pesquisa para compartilhar: O Brasil é o lanterninha na pesquisa que compara a confiança interpessoal de 30 países do mundo*. O resultado é que apenas 11% dos brasileiros afirmam confiar no próximo, contra uma média global de 30%.
A desinformação, as fake news, as artimanhas jurídicas, a impunidade, o jeitinho de jogar fora das regras e ainda vencer a partida, os inúmeros golpes e tantas outras coisas. Vivemos um tempo de armadilhas, de mentiras e versões que podem virar o jogo.
Isso é péssimo. Aumenta o nosso isolamento e, embora maior em número de pessoas, a sociedade encolhe.
Há alguns dias mandei uma mensagem com o seguinte texto:
“Desculpe. Percebi que te menti ontem.” e expliquei o que, de verdade, tinha acontecido. Foi incrivelmente bom.
Jamais devemos nos esquecer que a confiança também depende das nossas próprias atitudes.
O melhor remédio para restaurar a confiança ferida é a verdade.
*pesquisa do instituto IPSOS.



