Há dias que deixei de escutar os pássaros.
Fechei as janelas, as cortinas.
Conferi, mais de uma vez, toda e qualquer fresta que pudesse atrapalhar meus planos.
De mergulhar em mim.
É nesse lugar que preciso me concentrar.
Tem tanta coisa pra botar no lugar.
Tanta bagunça.
Nem sei por onde começar.
Descubro que tem coisa demais num canto.
Recoloco em ordem — obviamente não alfabética,
mas de alegria, parte das lembranças.
Reconheço que aqui passou um tornado.
Que deixou sinais, uns leves e também marcas profundas.
Será que devo esfregar isso até sair?
Evito.
Mas logo vou em frente.
É mais que faxina, hoje o dia é de desapego.
Quem se fecha em si conhece a dor e a glória da simbiose.
Sente como uma das plantas da casa a falta de água, a ausência de luz…
Onde foi parar o cuidado?
Não é hora de responder a perguntas.
Nem de questionar nada.
É preciso apenas ter coragem.
Um espelho ajuda...
“Ora, mas já estou preso em mim!”
Então, ouça o ritmo da respiração.
Mas deixe ela mais acelerada.
Não se pode demorar muito.
Acelera!
O mundo lá fora te cobra agilidade.
OBS: não é pressa, é ausência de paciência pra sofrer.
Eu tenho tempo pra ficar aqui.
Pra conferir cada detalhe antes que a
nova visita entre.
Mas que venha logo.
Sem pedir licença.
Não se arruma o desarrumado.
Para ficar sempre bonito.
O bonito, aliás, não é perfeito.
Perfeito mesmo é ouvir de novo.
O canto do sabiá.
Ele me fará abrir as cortinas.
Sentir o sol inundar tudo.
E deixar correr por aqui.
O vento da vida.






