
Por mais que brios e convicções possam ser feridos por grosserias ou desmandos de chefes de Estados alheios, resumir nações por suas lideranças políticas é um dos estereótipos mais injustos com outros povos. Em sua persona pública, Javier Milei incorpora o tipo bufão e mal-educado, mas ele não é a Argentina, como Donald Trump não são os EUA, Benjamin Netanyahu não é Israel, Vladimir Putin não é a Rússia ou Lula e Bolsonaro não são o Brasil.
Estereótipos são economia de pensamento, o que também pode ser considerado ignorância ou desinteresse por conhecer mais a fundo uma situação antes de proclamar um julgamento baseado em aparências. Em resumo, é mais fácil tacar um carimbo na testa de povos longínquos do que perscrutar as diversidades e complexidades de qualquer sociedade.
Voltemos ao caso brasileiro. Quando o bolsonarismo governava o Brasil, devia toda a nação ser mesclada ao sobrenome de Jair e seus simbolismos? Idem agora com Lula. É o lulismo o denominador comum de todos os brasileiros? E indo mais a fundo nos estereótipos com que somos brindados lá fora: podem 213 milhões de almas serem sintetizadas como um povo que só trocaria o Carnaval para jogar futebol e ir à praia?
Estereótipos me fazem recordar aqueles cartões postais que reforçavam o imaginário sobre o gaúcho algumas décadas atrás: o peão e a prenda dançando sob uma figueira, com churrasco, quero-quero e roda de carreta para fechar o cenário. Nenhum problema na recriação, a não ser o fato de que o Rio Grande do Sul, como sabemos, é composto por uma riquíssima multiplicidade de culturas, etnias e paisagens. Se nem a história comum pode ser entendida como uma unanimidade que resuma o povo gaúcho, o que dizer então de outras generalizações, estas reprováveis, por estimular ranços e xenofobias?
Uma delas, injusta como todas as xenofobias, é definir o Rio Grande do Sul como racista, machista e homofóbico. Episódios isolados, por mais condenáveis que sejam, são matéria-prima para juízos superficiais e estereótipos, e, por decorrência, discriminações que, não raro na história, desembocaram em perseguições e genocídios.
Como jornalista ou turista, acredito conhecer razoavelmente bem EUA, Israel, Rússia e Argentina. Independentemente de governos, estes países, como tantos outros, são habitados por povos admiráveis que produziram conquistas memoráveis para a civilização. Julgar e condenar nações pela conduta de líderes transitórios, sem levar em conta a riqueza e diversidade de cada país, não é só preguiça mental: é o caminho mais curto para o preconceito. Critiquemos, se quisermos, os líderes de ocasião, mas não coloquemos as nações e seus povos no mesmo balaio.





