
Embora apreciador do ofício, nunca fui comentarista esportivo. Mesmo assim, não é preciso muita iluminação para deduzir por que, desde 2002, o Brasil parou na quinta partida em cinco das seis Copas e foi humilhado em casa na outra. Não é porque a Seleção jogue muito mal. É porque outros, numa triste analogia com a situação social e econômica do país, jogam cada vez melhor. Aqui e ali, a Seleção e o país até avançaram, mas muitos avançaram de forma mais acelerada e consistente.
A CBF investe fábulas em infraestrutura e mimos para os escalados, enquanto nós aqui (me incluam nessa) fazemos loas à tradição da camisa canarinho e coisa e tal. Nada disso resulta em sucesso porque a barra, como na educação, na tecnologia e na economia, subiu e muito. Acreditamos que basta despejar dinheiro e ter fé para que as coisas aconteçam. Não é mais assim, se é que um dia o foi, seja no futebol, na ciência, na educação ou na qualidade de vida, enfim.
Em 1969, eu era uma criança extasiada no Maracanã a assistir Pelé, Tostão e Jairzinho aplicarem 6 a 0 na Venezuela nas eliminatórias da Copa de 70. Em 2014, eu era um marmanjo perplexo no Mineirão a assistir a sova infligida pela Alemanha. O que mudou do fiasco do 7 a 1 para cá? Nada, a não ser a importação de um técnico que parece atônito com as coisas a sua volta. Mantivemos a ilusão de que, nesta pátria em chuteiras, bastam garra e orações para nos levar à glória.
O problema é que os outros também rezam para diferentes crenças, e se garra, fé e mandingas variadas ganhassem campeonato, Colômbia e México estariam no lugar de Suíça e Inglaterra. O mundo nunca funcionou assim, e agora e no futuro funcionará menos ainda.
Estamos na era da descoberta de talentos que se somam ao esforço coletivo, do esforço colaborativo, da inovação e do treinamento incansável. O clima de festerê e oba-oba, a malandragem como atalho e a ostentação de novos ricos cafonas flutuam na superfície dos nossos naufrágios sucessivos, no campo e fora dele. Trabalho mais duro do que os concorrentes, esforço cooperativo, treino, treino e treino (ou educação, educação e educação) são as molas impulsoras que levam atletas e nações aos píncaros, nunca a cultura do improviso ou de levar vantagem em tudo.
Por aqui, ficamos procurando respostas para mais um fracasso em Copa, na substituição mal-feita, na escalação capenga, na tática inapropriada, na falta de tutano e por aí vai. Tudo isso conta, mas lá no fundo o futebol brasileiro é uma síntese de nossas mazelas. Não é por acaso que nossas pouco reluzentes estrelas jogam no futebol europeu ou que temos sido sistematicamente mandados para casa por países que não fazem do jeitinho e da gambiarra símbolos de orgulho nacionais.


