
A procissão de vitórias da direita nas Américas do Sul e Central tem muito mais a ver com o espectro da criminalidade do que com uma onda conservadora clássica. Seja pela negligência nas agendas ou por teorias que jogam a solução para as calendas, a miopia das esquerdas latino-americanas em lidar com o crime não ajuda seus candidatos.
No vácuo de resultados concretos, Nayib Bukele, o popular líder direitista de El Salvador, virou sujeito nada oculto de campanhas pelo continente. A experiência salvadorenha demonstra que é possível derrubar estatísticas por meio da mão pesada, e frequentemente acima de direitos individuais, contra facções e criminosos comuns. Com prisões em massa, a taxa de homicídios em El Salvador desabou de 103 por 100 mil habitantes para 1,3 a cada 100 mil habitantes, uma queda abrupta de 98% em um país que já foi sinônimo de violência, corrupção policial e sobressalto constante.
Ninguém à esquerda (e ao centro também, ressalve-se) defende a bukelização dos sistemas policial e penal, o que garante a candidatos à direita exclusividade na promessa de replicar os métodos salvadorenhos. Para quem não sabe se voltará com o celular para casa, esquerda e direita não interessam. Essa angústia passa ao largo dos programas de governo que se limitam a pregar conceitos e estratégias vagas, para um eleitor que entende e aplaude quando os criminosos vão para trás das grades e lá permanecem sem cometer crimes.
Por si só, a mão violenta do Estado não tem se mostrado capaz de reverter os índices no Brasil. A Bahia, onde se empilham cinco gestões sucessivas da esquerda, tem a segunda maior taxa de homicídios do Brasil (40,9 por 100 mil em 2024, segundo o Atlas da Violência) e também a polícia que mais mata (1.569 mortes em 2025). Enquanto El Salvador aprisiona muito (1,6 mil presos por 100 mil habitantes), em alguns Estados do Norte e Nordeste, a polícia mata muito e os presos são atirados em masmorras mais medonhas que os mega presídios de El Salvador. Em comparação com os Estados campeões de letalidade, a estratégia salvadorenha de aprisionamento em massa é mais efetiva e, por incrível que pareça, menos violenta que a de alguns Estados brasileiros.
Como demonstra o Rio Grande do Sul, contudo, há uma terceira via para fazer as estatísticas minguarem. Para quem não lembra do terror, há 11 anos, roubavam-se em média 35 carros por dia em Porto Alegre — hoje, a média é de um veículo diário. À exceção dos feminicídios, a política de segurança que vem se aperfeiçoando há uma década exibe resultados efetivos ao conciliar inteligência, tecnologia e investimentos, sem abrir mão de demonstrações de força quando necessário. Mesmo longe de um patamar ideal, a estratégia gaúcha evidencia que discursos bélicos ou populistas não são a única opção de combate firme ao crime.



