
Do Banco Master às portas abertas no celular que temos nas mãos, das manipulações de resultados de jogos ao furto da aposentadoria dos velhinhos, a sensação é de que estamos cercados de vigaristas por todos os lados.
Foi sempre assim, pode alegar quem se lembra do golpe do bilhete premiado ou do calote no comerciante. Negativo. O que vemos hoje é uma epidemia de trambiques. A doença se espalha pela combinação perversa de ganâncias desmedidas com tecnologias e fraudes que parecem estar sempre alguns passos à frente da lei.
Como mostra a exemplar série de reportagens da RBS “Olha o Golpe”, a era digital acelerou tudo. De tão manjadas, as ligações com gravações de golpistas já foram para a mesma vala do golpe do falso sequestro. A sofisticação agora é tamanha que mesmo eu, que sou razoavelmente letrado e tenho olhar crítico e vigilante, quase caí num deles. O golpe: picaretas copiaram um site idêntico ao de uma empresa real de logística com um link para pagar taxas alfandegárias de uma pequena compra internacional. Anexaram, via WhatsApp, os dados exatos da minha compra e até uma foto da suposta embalagem com a encomenda.
O crime ficou sem alguns trocados porque o Banrisul – que merece ser louvado por ter identificado algo suspeito – me mandou para o canto pensar antes de transferir o Pix. Em alguma dobra da cadeia, informações reais sobre a compra caíram nas mãos de golpistas. É uma invasão assustadora.
O crime mudou de endereço – da agência bancária e do ônibus para o celular – porque, além dos reforços em tecnologia, o dinheiro também trocou de CEP. O celular virou carteira virtual, agência e loja online. Quem o toma e o invade furta toda a vida do cidadão, quando não leva o próprio ganha-pão, cada vez mais dependente de um número de celular pelo qual serviços são contratados e negócios, fechados.
Nos últimos meses, hackers driblaram sistemas de segurança e desviaram mais de R$ 1 bilhão em variados elos da cadeia do Pix. Alguns criminosos foram presos, mas se nem o sistema bancário consegue deter essa nova vertente da bandidagem, o que sobra para o cidadão?
No geral, as autoridades estão sempre atrás dos criminosos, que se organizam com rapidez – do ladrão de celular a quadrilhas internacionais. Para piorar, no Brasil fomos abduzidos por uma luta ideológica que contamina a discussão razoável e, portanto, dificulta uma solução rápida e decisiva para as fraudes digitais, golpes e toda sorte de trambiques. Se não formarmos legiões de especialistas em combater golpes eletrônicos, e se a prevenção não virar prioridade número um das instituições financeiras, vamos seguir com a guarda aberta. E isso porque a IA está apenas chegando agora ao arsenal criativo e infindável dos criminosos.



