
No início de dezembro, quando Jair Bolsonaro autorizou o filho Flávio a se proclamar, de supetão, seu candidato a presidente, pouca gente entendeu. Até então, a predileção de alas conservadoras apontava para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, com a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro como possível vice.
A pressa em nomear Flávio seu sucessor ainda em dezembro só encontrou explicação nos voos ensaiados por Michelle para ser candidata a presidente ou a vice. Antes que o cetro dos Bolsonaro passasse a Tarcísio ou a alguém que chegou depois ao núcleo familiar, Flávio foi tornado candidato. Agora restou evidente que Michelle nunca engoliu a manobra e que exige, no mínimo, abençoar ou vetar alianças nos Estados em que estendeu sua influência pela liderança no PL Mulher.
Na quarta-feira (24), quando eclodiu o vídeo de Michelle espinafrando Flávio, veio à tona aquilo que até então fervia no subterrâneo: a rede de intrigas e antagonismos dentro do complexo empreendimento político-familiar dos Bolsonaro. As línguas de fogo têm o poder de torrar mais um tanto a candidatura de Flávio, apimentadas pelo fato de o ex-presidente estar em prisão domiciliar e proibido de se manifestar em público.
Como já bem demonstrado, o vídeo de Michelle foi um ato premeditado, com texto burilado de antemão e produção meticulosa. O planejamento, a extensão e a clareza do pronunciamento, sobretudo quando se dirige acidamente ao ungido por Bolsonaro, indicam que o alvo de sua mensagem também são o marido e os demais filhos, aos quais deixa subentendido que ela – livre, leve e solta – pode produzir estragos em série caso seja desprezada.
Há quatro hipóteses para a posição de Bolsonaro sobre o vídeo. Ou ele não sabia e concordou, e neste caso Flávio tem um problema. Ou ele sabia e concordou, e aí Flávio tem um problema maior ainda. Ou sabia e não concordou, e então Bolsonaro tem um problema em casa. Ou, por fim, ele não sabia e não concordou, e aí o problema é potencialmente explosivo para os Bolsonaro caso Michelle decida seguir rumos próprios, desatada das amarras do clã.
Ao destampar a crise familiar, Michelle reacendeu as especulações de que, diante da apatia de líderes de direita e de evangélicos com a candidatura de Flávio, possa ela ser convocada a representar Jair. Previsivelmente, Michelle jura que não e que sua missão é cuidar do marido. É, pode ser. Mas, enquanto isso, produziu o ataque mais contundente contra a candidatura do enteado e deu um presente a Lula na semana em que tentava se desvencilhar da ligação com o senador Jaques Wagner, enrolado no Caso Master. Se não contiver as maledicências dos filhos de Jair sobre Michelle, o fogo amigo ainda tem muito combustível para incendiar a campanha.



