
Dada a inutilidade das sanções e dos bombardeios para dobrar o regime iraniano, é hora de se abrir o arsenal que, sem violência, pode produzir milagres em regimes autoritários, como a URSS ou Coreia do Sul e Taiwan até meados dos anos 80. A arma mais eficaz do Ocidente não é o isolamento ou a guerra, mas a integração a um capitalismo que desencadeie, mais dia ou menos dia, aspirações coletivas de prosperidade e liberdade.
No caso do Irã, a política do porrete só daria certo se houvesse, como no Iraque, uma invasão por terra. Diante da compreensível inapetência pelo confronto em solo, o regime saiu fortalecido para reprimir ainda mais uma oposição silenciada pelos ataques. Em ditaduras sem liberdade de imprensa, como no Irã, não importa como as coisas são – mas sim como o regime as embala. Mesmo com a marinha e a força aérea pulverizadas, o que restou foi o ufanismo pela resistência à maior potência militar do planeta e a capacidade de controlar a economia mundial pela torneira do Estreito de Ormuz.
Para entender por que represálias econômicas não funcionam, vejam-se os casos de Cuba e do Brasil. Enquanto o resto do mundo negocia normalmente com Cuba, a ditadura de Havana se exime há décadas do caos econômico ao atribuí-lo unicamente ao boicote dos EUA. E as tarifas anunciadas por Donald Trump contra o Brasil só acabaram por reforçar quem se enrolou na bandeira da soberania – no caso, Lula, justamente o adversário da família Bolsonaro.
No memorando de entendimento assinado com o Irã, há uma nesga de esperança. O compromisso de se investir US$ 300 bilhões na recuperação do país pode trazer um surto de capitalismo e, com otimismo, empurrar a ditadura ao menos para uma senda de razoabilidade, tal qual a Arábia Saudita. Já seria um alento e tanto para uma teocracia que emprega grande parte dos recursos para seu programa nuclear e o patrocínio de movimentos terroristas.
Como ocorreu no Leste Europeu, o desejo por liberdades civis e econômicas é uma poderosa mola propulsora de mudanças. Se o Irã for invadido por mais empresas e oportunidades, há uma chance de se criar a convicção de que outro mundo é possível e que o Ocidente não rejeita a rica cultura e história iranianas. Os iranianos viajarão mais a outros países e verão pelos próprios olhos que mulheres e gays não precisam ser discriminados ou perseguidos. E, nas frestas de liberdade, talvez se amplie também a diversidade espiritual, em oposição ao fundamentalismo iraniano.
Bombas, como se viu, não adiantaram. Tentar o arsenal da expectativa por liberdade para trazer o Irã de volta à razão é o que restou como melhor opção no momento.




