
Em se tratando da política nesta quadra da vida nacional, a previsão de hoje é a furada de amanhã, a ponto desta previsão mesmo poder ser uma furada. Neste cenário gelatinoso, no qual os humores sobem e descem sem motivações óbvias, ganhar ou perder eleições passou a ser um misto de estratégia com fartas pitadas de acaso recobertas por uma embalagem que não deixa transparecer o que está dentro do pacote.
No Brasil, onde se achava que candidatos a presidente com discurso para todos e muito tempo de TV tinham lugar garantido no segundo turno, a inauguração da era da incerteza tem um marco. Jair Bolsonaro era um obscuro e exótico deputado em sétimo mandato quando, para surpresa de muitos, disparou nas pesquisas. Sua estratégia era falar nas redes para um Brasil que já era de direita mas ainda não sabia ou tinha vergonha de admitir em voz alta.
De quebra, Bolsonaro pôs por terra o mandamento de que candidato precisa de partido forte e dominar o horário eleitoral gratuito. Bolsonaro se alavancou pelo nanico PSL com oito segundos de TV. No campo do acaso, uma facada criminosa o poupou de ataques e, na combinação, o mais improvável dos candidatos virou presidente do Brasil.
Muda o cenário. Ao ser condenado e preso por corrupção em 2018, Lula era dado como morto politicamente. Mas aos delírios de Bolsonaro sobre a Covid e a seus ímpetos golpistas somou-se a anulação das condenações de Lula pelo STF para ressuscitar o lulismo e torná-lo o algoz do bolsonarismo em 2022. Quem, cinco anos antes, apostaria nestas reviravoltas?
A sucessão de previsões furadas virou lugar-comum na política brasileira porque grande parte delas não passa de desejos disseminados nas redes e, portanto, são amparadas mais pela paixão cega do que pela dúvida ou pelo fato de que, como dizia o ministro Pedro Malan, no Brasil até o passado é incerto.
Com a Nação aprisionada em bolhas, a sucessão de furadas é interminável. Veja-se apenas estas últimas duas semanas. Um dia, o governo Lula estava liquidado porque seu indicado ao STF foi o primeiro rejeitado pelo Senado em 132 anos. Na semana seguinte, Lula aprovou uma série de projetos no Congresso e desfilou pela Casa Branca, onde ganhou afagos de Donald Trump. Ato contínuo, as bolhas lulistas o tacharam de estadista e se entusiasmaram com o que seria um golpe profundo no bolsonarismo.
Calma lá. Lembremos que toda previsão política, ainda mais as apaixonadas, pode ser uma furada. Amanhã, o instável Trump pode dar novas cotoveladas em Lula, Flávio Bolsonaro pode desinflar quando se ouvir sua voz para além de platitudes e tudo pode acontecer, inclusive nada.
Na era de hoje, é bom ter em conta que a única certeza é a incerteza. Seria bom aprendermos a conviver com ela – e termos menos certezas políticas.


