
Se há algo que merece reconhecimento em Daniel Vorcaro é que ele não tinha preconceito. Ecumênico, ia às compras à direita, à esquerda e ao Centrão em busca de favores, proteção ou serviços, lícitos ou ilícitos, em sua escalada para se converter em vigarista número 1 do país.
Como demonstram a gravação e mensagens de Flávio Bolsonaro, flagrado na relação e na mentira ao tentar negar a relação, Vorcaro se tornou o caixa eletrônico milionário de políticos em diferentes graus de ambição ou desespero. Em contraste com os vetustos banqueiros que lhe torciam o nariz, Vorcaro distribuía saudações de “irmão” a políticos, como o prócer do Centrão Ciro Nogueira e o próprio Flávio.
Um pilantra enrolado chamar senador de “irmão” é parte da tradição de pretender exibir laços de sangue aconteça o que acontecer – leia-se a Polícia Federal bater à porta. O estranho mesmo é um senador tratar o banqueiro, já para lá de enrascado com a lei, de “mermao”, como Flávio escreveu em uma de suas mensagens que não se apagavam depois de lida.
Mermão é uma gíria carioca para quando se quer demonstrar simpatia, familiaridade e afinidade. Muito apropriado para o filho do personagem do filme que sacou de Vorcaro R$ 61 milhões para lustrar o sobrenome nas telonas. Que seja dado ao senador o beneplácito de que agia apenas em busca de um investidor para sua incursão pela sétima arte. Mas pode alguém se arvorar de candidato a presidente da décima economia mundial urdindo negócios na surdina – e mentindo descadaramente sobre eles – com o salafrário mais notório do país? Ou Flávio Bolsonaro sabia da fama de Vorcaro, e isso é um problemão. Ou não sabia, e aí seria de uma ingenuidade incapacitante para exercer até a função de porteiro de boate.
Tem de ser muito mermão para virar o rosto às relações promíscuas de Vorcaro com Flávio e Ciro Nogueira e se refugiar no argumento rasteiro de que seus adversários já praticaram coisa pior. Admitir que um erro justifica o outro é fazer a cama para aquilo que os corruptos mais desejam: passe livre para trambicagens que absolvam a todos.
No caso do Master, o alcance de seu caixa eletrônico é realmente generoso. Com atos lícitos ou não, mas sempre amparado em cifras milionárias oriundas de fraude, Vorcaro contratou serviços de familiares de ministro do STF, investiu no resort de outro, fechou acordos com um ex-ministro do STF, um ex-ministro da Fazenda e um ex-presidente do Banco Central, e acertou o aluguel de influenciadores, presidente de banco estatal, altos funcionários do Banco Central, sites e pseudojornalistas. Tudo isso sem que ainda tenha saído a lista final da convocação de todos em apuros.
Ainda veremos muito irmão para lá e para cá. Se gritar pega ladrão, não ficará um, mermão.




