
Quando, em mais uma de suas bazófias irresponsáveis, Donald Trump ameaçou empurrar o Irã “de volta para a Idade da Pedra”, ao menos do ponto de vista da internet ele foi redundante. Neste fim de semana, completam-se seis semanas de apagão digital no Irã. É o mais longo período de desconexão de um país – o recorde anterior era o do Sudão, em 2019, com 36 dias, enquanto a Coreia do Norte nunca se conectou à internet.
A vida com blecaute na internet é um experimento social que será objeto de estudos quando a poeira da guerra baixar. Como uma sociedade habituada a se divertir e se informar pela web, a se comunicar com parentes e a fazer negócios online reage à mutilação digital de uma hora para outra? Do pouco que se vislumbra, há uma paralisia daquilo a que o resto do mundo está acostumado, da checagem de notícias e compras no e-commerce a agendamentos digitais e compartilhamento de fotos com a família.
Segundo a ONG Netblocks, menos de 1% da internet no Irã está no ar, e ainda assim restrita aos chamados “chips brancos”, distribuídos pelo governo a pessoas selecionadas por sua lealdade, ou via cerca de 50 mil conexões ilegais de Starlink. A posse do terminal pode render dois anos de cadeia. Até o início de abril, 49 pessoas tinham sido presas.
Na penumbra digital e sem liberdade de imprensa, a desinformação campeia no Irã. Para dentro do país, com a restrição total de acesso a meios confiáveis, o regime pinta e borda em versões fantasiosas e hiperpatrióticas. A marinha iraniana está no fundo do mar, a força aérea virou cinzas, a liderança anterior foi dizimada e o céu do Irã é uma casa da sogra, mas a propaganda interna via TVs, rádios e jornais controlados canta vitória absoluta porque o resto do mundo é extorquido para passar navios pelo Estreito de Ormuz e sofre com a crise do petróleo.
No exterior, a estratégia do regime é vender a imagem de nação coesa onde as pessoas viviam em fraternidade e liberdade até serem atacadas. Nas redes do Ocidente, amplificadas por algoritmos e simpatizantes, vozes de civis atingidos são apresentadas à exaustão e mulheres dão depoimentos sobre supostas condições de igualdade de gênero. Só não há gays iranianos agradecendo pela pena de morte a homossexuais e nem referência ao massacre de milhares de opositores que foram às ruas em janeiro, quando a internet também foi desligada por 18 dias.
Se internamente a web é subversiva, a IA se tornou uma arma do regime a explorar a boa-fé de incautos em videozinhos como o que criou uma réplica digital do aiatolá Mojtaba Khamenei – não visto em público desde fevereiro – em visita a um centro de controle militar que só existe na imaginação sem contraponto. A falta que fazem a internet e uma imprensa livre.


