
De todas as reações de ministros do STF e parentes à teia de revelações sobre a promiscuidade com o reino da fantasia de Daniel Vorcaro, a mais espantosa não é a explicação dos valores milionários, inalcançáveis até para alguns dos mais renomados escritórios de advocacia do país, auferidos pelo escritório da esposa de Alexandre de Moraes para prestar serviços ao Banco Master. O que assombra de fato é a tentativa do ministro de jogar na vala comum de um “ataque ao STF” as críticas a sua estranha proximidade com o dono de uma folha corrida de escândalos megamasters.
Moraes lança a perigosa cartada do corporativismo ao se agarrar à reputação do STF, que pelo respeito angariado por gerações que o antecederam, paira acima das peripécias de alguns togados atuais. Na visão de Moraes, cobrar transparência de um ministro equivale a atacar o que o tribunal representa, em uma negação de responsabilidades individuais, que, estas sim, ferem a imagem da instituição quando tentam arrastá-la para o pântano.
A estratégia é um clássico em regimes autocráticos, que silenciam opositores a governos com a falácia de que são traidores que atacam a própria nação. Tais autocratas são devotos da máxima de Luís XIV, o Rei Sol: “O Estado sou eu”. Podia ser lá na França monarquista e absolutista. Aqui por estes trópicos, ninguém com cargo transitório pode se esconder por trás do biombo de instituições perenes que não têm nomes e sobrenomes.
Tão tacanha quanto a estratégia do ministro para se blindar só mesmo a de parte de uma esquerda que entrou de novo no modo negacionista e se enrola na bandeira de Moraes para repelir as fontes dos estorvos revelados. Entre elas, estão jornalistas e veículos de comunicação que, como sempre fizeram, trazem à tona conexões incômodas a todo o espectro político. Ao converter Moraes em símbolo inatacável, por seu papel no julgamento da banda golpista, essa esquerda reprisa a negação da Lava-Jato e seus milionários tentáculos amplamente documentados.
Para os negacionistas, a luta política contra os rivais está acima de equivalências éticas. Se a acusação respingar nos inimigos, bata-se bumbo o mais alto possível. Se for no lado deles, é invencionice de algum jornalista capcioso. Desde o Mensalão, há quem ainda caia nesse tipo de conversa. Mas o eleitorado que não foi tomado pela cegueira ideológica ouve o argumento da negação e pensa que aí tem. Esse eleitorado, ressalve-se, é o que vai definir a eleição presidencial de 2026. Se essa esquerda quiser repetir o desfile da Acadêmicos de Niterói, na crença de que bajulação e lealdade cega dão votos, que siga em frente na defesa intransigente de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Seus adversários só agradecem.



