
Ao fim do terceiro mandato, Lula já não deve ter amigos sinceros que lhe digam a verdade na cara. Pois só um presidente cercado de acólitos pode achar uma boa ideia ser descaradamente lisonjeado pelo enredo de uma escola de samba do grupo especial no Rio de Janeiro. Na noite deste domingo, os desavisados serão compelidos a contemplar a Acadêmicos de Niterói desfilando o tema Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil, em um puxa-saquismo primário, tal qual os que fazem Donald Trump crer no teatro dos que lhe beijam a mão.
A ode ao narcisismo presidencial é um disparate por diferentes ângulos. De um lado, a fulgurante homenagem no Sambódromo a um candidato a presidente no ano da eleição é um evidente favorecimento eleitoral, numa triste transformação em comício do palco mais vistoso da maior festa popular do Brasil. De outro, escancaram-se as portas para toda sorte de enredos a serviço de políticos e candidatos. De quebra, por poder vir a ser considerada propaganda antecipada, desafia a legislação eleitoral.

Vá lá que o desfile no Sambódromo nunca foi exatamente uma procissão do Dia de São Sebastião. Dominada por bicheiros, a grande maioria das escolas sempre esteve a serviço de políticos fluminenses e de governadores que alugam o enredo para declamar as maravilhas de seus Estados e, por decorrência, de seus governos. Mas até agora havia certo pudor quanto a se cantar as belezas e virtudes de um candidato a presidente no ano da eleição.
Quantos decibéis de justos protestos ouviríamos se, no governo passado ou no futuro, alguma escola viesse com o enredo Do Vale da Ribeira surge a esperança: Bolsonaro, o mito do Brasil. Ou, com um estímulo adicional, Das Minas Geraes surge Daniel Vorcaro, o Rei do CDB que encarou a Faria Lima. Vale tudo? Ou só vale quando o candidato e o interesse são do gosto de cada um?
Para se eleger pela quarta vez, Lula não precisa desta bajulação rasteira, um culto à personalidade típico de republiquetas e regimes autoritários. A família Bolsonaro já ajudou a lustrar a estrela de Lula ao insistir em empurrar seu sobrenome, mesmo com enorme rejeição, para a cabeça de chapa da direita. Portanto, quem mais pode atrapalhar Lula agora é ele mesmo e a turma que, deslumbrada pelo poder, já esqueceu como funciona uma maçaneta, pois em Brasília sempre há um bedel a correr à frente para abrir a porta.
Não bastasse tudo isso, há ainda o risco de um vexame na avenida. E se a escola bajuladora for rebaixada? Não faltará quem identifique Lula como pé-frio ou que proclame o presságio: “Sinais, fortes sinais!”




