
Não se sabe exatamente onde começou, mas foi provavelmente com Rebeca Andrade e suas quatro medalhas na Olimpíada de Paris, em 2024. A suavidade, alegria e simpatia de Rebeca trouxeram à tona o melhor do Brasil, ao menos a olhos estrangeiros ou aos que não tenham sido definitivamente cegados pelo ódio entre compatriotas.
Acima de governos, partidos e briguinhas nas redes sociais, Rebeca foi a ponta-de-lança do renascimento de um sentimento de brasilidade sem ideologias políticas, algo que estava hibernado desde os campeonatos de Ayrton Senna e da conquista do Penta, em 2002, quando pela última vez futebol, alegria e Brasil puderam ser conjugados na mesma frase.
Desde que Rebeca, uma façanha 100% Made in Brazil, mostrou que era possível desafiar os gigantes estrangeiros, mais e mais símbolos da criatividade e da persistência brasileira saíram do casulo e voaram. No cinema, vieram Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui e, em seguida, Wagner Moura e O Agente Secreto, duas vitrines das vicissitudes brasileiras que recolocaram o Brasil numa rota internacional esmaecida desde o surgimento do Cinema Novo ou, de forma mais isolada, do sucesso de Cidade de Deus, há mais de duas décadas.
Traduzida pela visão externa de um Brasil acolhedor, amistoso e divertido, a Renascença tupiniquim ganhou mais um símbolo na semana passada, com a primeira medalha de ouro de um país latino-americano nas Olimpíadas de Inverno. O fenômeno subiu um degrau a mais em significado porque Lucas Pinheiro Braathen não é só brasileiro – ele escolheu ser brasileiro para dar vazão a sua alma de ziriguidum. O mundo adorou sua história e imediatamente acoplou-a à imagem de um Brasil fagueiro que recepciona forasteiros com os braços abertos do Cristo Redentor.
No binômio esporte e cultura que forja a imagem externa do Brasil ainda estamos a dever algo inovador na música desde que a Bossa Nova e o Tropicalismo encantaram o planeta. Mas nem precisaria, porque os dois movimentos foram tão pródigos, e se associam tão bem à leveza brasileira, que têm crédito e estoque para seguir embalando lounges internacionais por décadas à frente.
A Renascença brasileira não apaga nenhum de nossos problemas, da corrupção à violência, passando pela irresponsabilidade generalizada e a radicalização política. Mas, pairando acima de nossas máculas, lá fora o Brasil conquistou um lugar ao sol em um mundo que rumina rancores, pisoteia divergências e expele os diferentes. Para quem nos enxerga de longe, o Brasil é um contraste a superpotências de cara amarrada e se mostra um país que recebe bem todos, proporciona uma vida mais relaxada e uma rotina com menos cobranças. De quebra, não tem inimigos, o que é raro, muito raro, neste ano da graça. Só nos falta ganhar a próxima Copa do Mundo jogando limpo e bonito.





