
Diante da remota hipótese de Donald Trump recolher sua armada no Caribe e voltar para casa de mãos abanando, a maior dificuldade que se vislumbra para a Venezuela não é a destituição do ditador Nicolás Maduro — e tampouco a querela legal e moral de intervir em nação alheia sem uma ameaça concreta aos norte-americanos. O problema é como recompor uma Venezuela transformada em feudo chavista há mais de um quarto de século e atolada em um pântano de agruras.
A chave para se imaginar a Venezuela pós-Maduro depende também de como ele deixará o Palácio de Miraflores. Algumas possibilidades:
- A solução negociada - É a de maior probabilidade. Ao bloqueio dos navios que mantêm o fluxo vital de exportações de petróleo, se somariam novos garrotes e alguma escaramuça militar limitada. Com o último aviso, o ditador negociaria um salvo-conduto para possivelmente fazer companhia a Bashar al-Assad na Rússia.
- A alternativa Saddam Hussein - Em termos militares, a Venezuela é uma presa mais fácil do que o Iraque. Maduro converteu seus generais em sócios do butim bolivariano, espalhando-os por toda a administração. O resultado: muita corrupção e forças armadas anacrônicas e desmotivadas. Do ponto de vista bélico, a neutralização de radares e unidades militares seria um passeio no parque para o poderio norte-americano. O problema central são as prováveis mortes de inocentes e instalações civis destruídas, que podem levantar uma onda de ressentimento contra os ocupantes, como no Iraque. Nesta hipótese, Maduro foge, é preso ou morto, mas abre-se um vácuo de poder e autoridade que exigiria enorme esforço dos invasores para conter a desordem e ganhar a confiança local.
- O levante popular - Torniquetes econômicos não costumam alimentar revoltas civis. Em países sob bloqueio, os governos transferem a responsabilidade pela penúria para quem impõe o cerco — vide Cuba há seis décadas. Ainda assim, se houver um empurrão e a garantia de que não serão deixadas na chuva depois, algumas lideranças de oposição podem tomar à frente de uma rebelião, com um ou outro general descontente. Um levante foi o que levou à troca de poder na Síria, mas, no caso venezuelano, as armas viriam junto com os marines.
Os três caminhos acima convergem para duas incógnitas — e são elas que desaceleram uma ação mais agressiva dos EUA. A primeira seria a inundação do planeta com um salto da produção de petróleo venezuelano. Para ser lucrativa, a extração do óleo de xisto dos EUA precisa do barril a um preço mínimo de US$ 60. Esta semana, só a possibilidade do fim da guerra na Ucrânia levou o barril abaixo deste patamar. A outra, ainda mais crítica, é o custo da estabilização e da reconstrução da Venezuela. E, aqui, não haveria mágica possível.




