
Na política brasileira, a direita é direita, a esquerda é esquerda e o centro, depende. Óbvia na aparência, essa configuração é a chave para se delinear uma candidatura vitoriosa na próxima eleição presidencial. Como fiel da balança, o centro faz exatamente isso: pende de um lado para o outro de acordo com as circunstâncias e o perfil de quem passa para o segundo turno — e tudo indica que teremos de novo um candidato à esquerda e outro à direita no provável confronto de 25 de outubro de 2026.
Em 2018, no desmoronamento da esquerda pela Operação Lava-Jato, o voto de centro foi majoritariamente anti-Lula, e deu a vitória a um nome alinhado à extrema direita. Ainda que um tanto a contragosto, o partido dos contra Lula adotou a candidatura de Jair Bolsonaro com a ideia de exorcizar o país de escândalos e promiscuidades com empreiteiras que marcaram a ferro e fogo próceres do lulismo.
Bolsonaro levou a eleição de 2018 com mais de 10 pontos sobre Fernando Haddad, mas chutou a bola para fora do campo tantas vezes — das declarações estapafúrdias ao negacionismo da vacina e ao flerte com a ditadura militar — que o centro, ponderado por natureza, mudou de lado em 2022. Lula ganhou de Bolsonaro com menos de um ponto de diferença, uma margem mínima que teria sido facilmente capturada por Bolsonaro se ele não tivesse metido os pés pelas mãos em controvérsias inúteis, bazófias e brigas perdidas.
Horrorizado pelo baixo nível palaciano e preocupado com a ameaça bolsonarista de promover de fato uma intervenção militar pedida por seguidores, o centro caminhou, sem nenhum entusiasmo, para um Lula que dava sinais de moderação ao escolher Geraldo Alckmin como vice e atrair Simone Tebet, a emedebista que incorporava o centrismo raiz. Ninguém simbolizou mais este movimento do que o insuspeito centrista Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central e voz ouvida e respeitada do mercado financeiro. Armínio disse que votaria em Lula para defender a democracia. “É uma situação esdrúxula essa, mas toda a nossa energia tem de ficar concentrada em salvar o que foi conquistado ao longo dos anos e é base do nosso futuro”, justificou.
Em 2026, o centro pode guinar mais uma vez. Depende de quem será o representante da direita em 2026. O centro não vota em Lula ou Bolsonaro — vota contra eles, recorde-se. É por isso que líderes da direita estão angustiados com a indefinição de seu representante em 26. Eles não podem passar por cima do ex-presidente, mas também não querem, por mais que disfarcem, um sobrenome Bolsonaro que espante o centro. Enquanto o lulismo precisar do bolsonarismo, e vice-versa, esta é a equação que definirá o presidente, num encanto que só se quebrará quando uma das correntes estiver fora do páreo.





