
Prezado Seu Jair, tomo a licença de usar o cordial tratamento que a agente do serviço penitenciário lhe outorgou quando convocada a verificar por que sua tornozeleira eletrônica fora violada no início daquela madrugada de sábado.
Não me alinho ao coro dos convictos de que o senhor armava uma fuga tendo em vista que seu filho marcara uma vigília ali perto e porque estava prestes a ir para a prisão. Mas também me é difícil assimilar por que o senhor, “por curiosidade”, tentou derreter a tornozeleira com um ferro de solda. Se era para descobrir como um polímero se desmancha, bastava furar um tubo de PVC, bem mais em conta.
De qualquer forma, sou um dos raros brasileiros que creem na versão de que o senhor teve uma alucinação motivada pela combinação de duas medicações. Não entendo por que o ceticismo sobre esta tese. Além de sua voz pastosa na conversa com a agente, seus advogados podem alegar que delírios são recorrentes na sua vida pregressa. Para sustentar a versão, eles poderiam enumerar alguns episódios em que o senhor nem estava sob o efeito de remédios – imagine-se agora!
Basta recordar, por exemplo, um dos primeiros delírios que o colocaram nas manchetes, o de um alardeado plano para explodir bombas em unidades militares do Rio nos anos 1980, naquele episódio que acelerou sua passagem para a reserva. Na época, o senhor também era obcecado por enriquecer com o garimpo, lembra? A febre do ouro tanto fez sua cabeça girar que chegou a ser admoestado por um Conselho de Justificação do Exército pela fixação em ficar rico.
Mas foi na Presidência da República que todos pudemos testemunhar que alucinações eram um traço de sua personalidade. Ninguém esquecerá suas obsessões de que a urna eletrônica era fraudada, de que a cloroquina curava covid-19 e de que nada lhe aconteceria porque tinha histórico de atleta, o que levou muita gente boa a se descuidar e, por isso, não estar mais aqui hoje. E o que dizer da fantasia, compartilhada por ingênuos acampados em muros de quarteis, de que o “meu Exército” o manteria indefinidamente no poder, uma voz de sua cabeça ecoada por maus conselheiro?
Aproveito para recomendar a olhar bem estes médicos que lhe atendem. Como assim eles receitaram, cada um, uma bomba farmacêutica sem perguntar se o senhor tomava outra medicação, como disseram seus advogados? Alguém se atrapalhou aí.
Por fim, digo-lhe para evitar o desalento da cadeia. Isto é Brasil. O Lula não puxou 580 dias de prisão e está onde está de novo? Tenha paciência. Quando a poeira baixar, virá alguma anistia, uma redução de pena, ou algum ministro do STF vai lhe abrir as portas e ainda discursar contra os que o condenaram. Como mostra a Lava-Jato, isto não é delírio.
Atenciosamente



