
Em julho de 1976, o jornal La Opinión, de Buenos Aires, publicou uma reportagem de Blas Matamoro sob a manchete “Los negros han desaparecido del ámbito de Buenos Aires”. Acima do título, a cartola listava séculos de guerras, escravidão, candombes e tango. O verbo estava no passado. O desaparecimento era apresentado como fato consumado.
Cinquenta anos depois, a Copa do Mundo de 2026 recolocou a Argentina no centro dos debates sobre racismo. Enquanto seleções europeias escalam jogadores negros nascidos no país ou filhos de famílias africanas e caribenhas, eles mal aparecem no time argentino. A cada Mundial, a pergunta retorna, quase sempre vinda de fora: por quê?
Em 3 de julho, na partida contra Cabo Verde, torcedores argentinos hostilizaram o influenciador estadunidense IShowSpeed, que vestia a camisa cabo-verdiana. Um deles pareceu mandá-lo “chorar no zoológico”, caso que levou a Fifa a abrir uma investigação. Quatro dias depois, contra o Egito, outro torcedor imitou um macaco diante do mesmo influenciador e de uma câmera ligada.
Miriam Victoria Gomes, professora e fundadora da Cátedra África en Latinoamérica na Universidad Nacional de las Artes, viu as cenas e não se surpreendeu.
— Não me estranha, porque vivo isso todos os dias quando saio à rua, no ônibus, no supermercado, numa fila de banco. O mais grave é que a sociedade não leva o racismo a sério. Trata como assunto menor. E não é um simples insulto. É um delito, levando em conta a história das comunidades negras na América — diz.
Miriam presidiu a União Cabo-verdiana de Dock Sud por quatro mandatos. Para responder à pergunta sobre a seleção, ela propõe outra.
O que é ser negro na Argentina hoje?
Séculos de miscigenação produziram uma população afrodescendente que nem sempre apresenta o fenótipo imediatamente reconhecido como negro. Pessoas que não eram vistas como brancas foram chamadas de “cabecitas negras”, a expressão pegou nos anos 1940, quando a industrialização peronista puxou multidões das províncias do norte para as fábricas e as ferrovias de Buenos Aires. Miriam os descreve como afroindígenas, resultado de uma convivência secular entre comunidades negras e povos originários. Maradona reivindicava essa identidade. Dizia-se um cabecita negra e reafirmava com orgulho seu sangue guarani.
— Eu não digo que não há negros na seleção. Digo que seguem sendo invisibilizados. Os argentinos foram educados pela escola, pelos meios de comunicação, pelos livros e pelos discursos oficiais na ideia de que não há negros no país, de que Buenos Aires é a Paris da América Latina, de que a Argentina é branca — afirma.
Ela cita José Manuel Ramos Delgado, filho de um cabo-verdiano, que disputou as Copas de 1958 e 1962, foi capitão da Argentina campeã da Copa das Nações de 1964 e depois jogou no Santos ao lado de Pelé. Chamavam-no de El Negro. A Argentina também teve um jogador negro campeão mundial pelo país, o goleiro Héctor Baley, em 1978. Nas seleções de base, destaca-se Stephen “Kiki” Ramos, atacante do Vélez nascido em Porto Príncipe, no Haiti, adotado ainda bebê por uma família argentina.

A imigração europeia
Por volta de 1810, negros e mulatos – categorias usadas nos registros da época – eram cerca de 30% dos habitantes de Buenos Aires. Em 1887, o censo da cidade registrava 1,8% na categoria “outras cores”.
A queda costuma ser atribuída às guerras de independência e aos conflitos civis, à epidemia de febre amarela de 1871 e à miscigenação.
Esses fatores alteraram a população, mas não explicam uma extinção. As guerras não eliminaram todos os descendentes dos homens recrutados. A epidemia atingiu diferentes grupos de Buenos Aires. E a mistura entre pessoas de origens distintas não apaga ancestralidade. A ideia de que o branco absorve o negro pertence ao mesmo sistema racial que transformou a branquitude em sinal de superioridade.
O projeto de embranquecimento do país ficou registrado nas leis. O artigo 25 da Constituição de 1853 determina, ainda hoje, que o governo federal fomente a imigração europeia. Em 1876, a Lei 817 montou a máquina: Departamento de Imigração, agentes e propaganda na Europa, passagem subsidiada, alojamento gratuito ao desembarcar.

Entre 1869 e 1914, a população argentina passou de 1,8 milhão para quase 8 milhões de pessoas. A chegada maciça de europeus reduziu proporcionalmente o número de afrodescendentes. Ao mesmo tempo, os censos deixaram de perguntar sobre cor, mestiços passaram a ser incorporados à categoria branca e a escola ensinou uma história na qual os negros apareciam no passado colonial, pouco antes de desaparecerem.
Pergunta é recente até no Censo
A diferença em relação ao Brasil ajuda a dimensionar a escala. O Brasil foi o país das Américas que mais recebeu africanos escravizados: cerca de 4 milhões de homens, mulheres e crianças entre os séculos 16 e 19, mais de um terço de todo o comércio negreiro transatlântico, segundo o IBGE. Em 2022, pretos e pardos somavam 55,5% da população brasileira.
Para o Rio da Prata, região que incluía Buenos Aires e Montevidéu, o historiador Alex Borucki, da University of California, estima que foram levados ao menos 200 mil africanos e afro-brasileiros escravizados entre 1585 e 1835. O Censo de 2010 registrou 149.493, mas a pergunta não apareceu em todos os questionários. Em 2022, apresentada a toda a população, chegou a 302.936 pessoas, ou 0,7% dos moradores de domicílios particulares. O salto reflete a mudança metodológica e a ampliação do autorreconhecimento, não uma duplicação demográfica em 12 anos.
Em percentual de população, a Argentina é um dos países com menos de 1% de população negra da América do Sul, ao lado de Bolívia (0,2%) e Chile (0,9%).
— Essa cifra é suficiente para nós, como comunidade negra? Não. Honestamente, não é. Mas, em termos políticos, é um dado que temos de aproveitar — diz Miriam.
Em 2013, uma lei criou o Dia dos Afro-argentinos e da Cultura Afro, celebrado em 8 de novembro em homenagem a María Remedios del Valle, mulher negra que lutou nas guerras de independência e recebeu de Manuel Belgrano o posto de capitã.
Parte desses avanços foi desfeita. Em agosto de 2024, o governo de Javier Milei dissolveu o Inadi, instituto nacional contra a discriminação, a xenofobia e o racismo. Miriam afirma que programas culturais e formações antirracistas também foram interrompidos.
— Conquistas que havíamos alcançado estão desmanteladas. Ficamos sem amparo do Estado nacional na área de direitos humanos — diz.
Casos de racismo nas arquibancadas
Depois da final da Copa América de 2024, jogadores argentinos foram filmados cantando uma música racista e transfóbica sobre a origem africana de atletas franceses. A Federação Francesa acionou a Fifa, que abriu uma investigação.
Para Marcelo Carvalho, fundador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, o gesto de macaco sobrevive nas arquibancadas porque continua protegido por outra palavra: folclore.
— A gente fala das músicas da torcida, dos jogadores que repetem os cânticos e dos atos racistas nas arquibancadas, mas não vê posicionamento da federação. O que mais me assusta não são apenas os casos, mas a falta de ação da AFA e do governo. Parece que é um assunto sobre o qual decidiram não falar — afirma.
O silêncio permite que a violência seja rebatizada como provocação:
— Quando ninguém diz com firmeza que gesto de macaco e chamar alguém de macaco são racismo, o torcedor continua repetindo. Ele diz que é folclore, que faz parte de desestabilizar o adversário. Por isso não tem receio nem mesmo quando está sendo filmado.
Marcelo lembra que o Brasil também naturalizou durante décadas cânticos e expressões racistas. Para ele, a mudança começou com a pressão organizada dos movimentos negros.
— Na Argentina, parece que esse debate não chega ao poder, às federações, ao governo — afirma.
O futebol torna o debate visível para um público que talvez jamais procurasse o tema num livro de história.
— O que acontece no futebol não é diferente do que acontece fora dele. A diferença é que a sociedade para para discutir o racismo contra um jogador. Quando ocorre numa partida, o caso sai do esporte e alcança o restante do jornal — diz Marcelo.
"Saibam que nós existimos"
Perguntada sobre o que um leitor brasileiro deveria entender sobre a presença negra na Argentina, Miriam não deu uma definição. Começou a enumerar lugares.
Falou de afrodescendentes em Corrientes, Misiones e Entre Ríos, alguns falando guarani, outros português na fronteira com o Brasil. De comunidades em Córdoba, Tucumán e Salta. De povoados de Santiago del Estero formados por descendentes de africanos escravizados. De municípios da província de Buenos Aires como La Matanza, Merlo, Moreno e Avellaneda, onde ela mora.
— Quero que saibam que existimos, que estamos organizados e que temos uma presença antiquíssima neste país. Peço aos nossos irmãos do Brasil, a quem amamos, que saibam que nós existimos.
*Sob supervisão do jornalista Leonardo Oliveira, titular deste espaço.
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