
Na verdade, falta ali o Brasil entre as oito melhores. Porque, se formos recuar no tempo, tivemos o Uruguai, com a sua geração de ouro, a Colômbia, com a geração de Falcão García, Cuadrado e um James novinho, e o Paraguai. Figuras carimbadas, mesmo, só o Brasil e a Argentina.
O ponto da Eurocopa com dois convidados é que estão ali seleções que, em determinado momento, pararam e tentaram entender a razão de estarem pegando caminhos errados e passaram a trabalhar firmes no projeto para captação e formação de talentos. Olharam para dentro e descobriram que era preciso reconfigurar o modelo de formação de jogadores. A seleção é resultado da sua base, do modelo que adota para oportunizar a talentos virarem jogadores.
A França criou a Clairefontaine, em 1988. Ficou de fora da Copa de 1990, de 1994 e colheu frutos em 1998. O Marrocos inspirou-se nesse projeto e criou a academia Mohamed VI. Deixou de ser figurante em Copas a partir de 2022 e ganhou o Mundial sub-20, bronze olímpico e Pré-Olímpico da África neste ciclo.
Seguimos para Inglaterra e Noruega. Os ingleses tinham uma liga de 20 anos que só crescia. Porém, a seleção definhava. Em 2012, criou o EPPP (Elite Player Performance Plan). O projeto obrigou os clubes da elite a ter academias de formação de atletas, que são fiscalizadas pela Premier League e pela Football Association.
Noruega
A Noruega, em 2013, criou um plano em que foram construídos 1,8 mil campos de grama sintética no país, alguns cobertos, para permitir jogar no inverno, e formou 700 profissionais para orientar e disseminar os conceitos de formação nos clubes e escolinhas do país. Os melhores atletas são levados para a Landslagsskolen, a Escola da Seleção Nacional.
Bélgica
Seguimos para a Bélgica, que entendeu depois da Copa de 2002 que suas gerações douradas haviam acabado com o adeus de Marco Wilmotz.
A esperança de renovação estava com os irmãos Mpenza, dois jogadores de qualidade bem duvidosa. Foi quando a federação buscou na ciência um modelo de formação de jogadores, criando o que definiram como DNA do jogador belga.
A partir de 2014, a Bélgica passou a ter relevância na Euro e nas Copas e a ter seus novos talentos espalhados pelas grandes ligas.
Espanha
A Espanha mantém, muito a base de La Masía, do Barça, e de academias como as dos bascos Real Sociedad e Athletic, sua renovação constante. Porém, a La Liga exige que, entre os 25 inscritos no campeonato, oito tenham passado pelo menos três anos entre os 15 e os 21 na base de um clube espanhol e que quatro desses sejam formados no próprio clube.
Além disso, há grande preocupação com a estrutura para formação. A La Liga negociou 11% dos direitos comerciais dos clubes por 50 anos com o fundo CVV (Real, Barça, Athletic e Osasuña não toparam). Os clubes tiveram acesso a mais de 2 bilhões de euros. Porém, esse dinheiro era direcionado para tecnologia, reformas em estádios e infra-estrutura para centros de treinamento e formação.
Desenvolvimento de atletas
Acredito que parte desse predomínio europeu esteja ligado a essa preocupação em desenvolvimento de atletas. Há, é inegável, o predomínio financeiro, que permite vir à América do Sul e levar os principais jovens. Mas isso não explica tudo.
Precisamos, no Brasil, olhar para o nosso modelo de formação e, enquanto reconfiguramos a rota, implantamos de forma séria o fair play financeiro e revisamos a lei que limita a três anos o primeiro contrato de um jovem atleta.
Os clubes precisam ser salvos e fortalecidos, para que possam formar atletas para seu uso e não para vender ao primeiro europeu que chegar. Enquanto não fizermos isso, seguiremos caindo para Bélgica, Croácia e Noruega, emergentes na Europa que fizeram bem o dever de casa. Viraram uma mini Euro.
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