Orçamento rígido, contas ajustadas, garimpo criterioso no mercado e reconfiguração de todo o departamento de futebol. Em seis meses, Fabinho Soldado tem a sensação de ter vivido um ano inteiro ou mais na cadeira de executivo do Inter.
A ginástica para montar um time competitivo para Paulo Pezzolano e fazer com que os colorados não tenham de passar pelo sustos de 2025 norteiam o dia a dia. Mas estão longe de tirar do prumo o carioca de 49 anos, nascido em Nova Iguaçu e criado no futebol carioca. Tanto como jogador quanto como dirigente.
Aliás, foi no mesmo Bonsucesso em que começou nos gramados que ele iniciou como dirigente. Depois vieram Bangu, Anápolis, Tupi-MG até chegar ao Flamengo, como scout. Depois, passou a chefiar o departamento, virou gerente de futebol e desembarcou no Corinthians para ser campeão da Copa do Brasil.
Quando surgiu o Inter, não pensou duas vezes. Até porque reencontraria no Beira-Rio Abel Braga. Hoje, os dois trabalham sintonizados e afinados no vestiário, onde ocupam salas vizinhas.
Em mais de meia hora de conversa com a coluna, Fabinho falou da gestão do futebol, de uma janela em que só haverá chegadas caso se tenha saídas, da reestruturação da base e, claro, da necessidade de vendas. Confira a conversa completa no vídeo acima.
Leia a entrevista com Fabinho Soldado
Nesses primeiros seis meses, que Inter tu encontraste e que passos que tu já começaste a dar nesse processo de reconstrução, colocando a tua mão ali no departamento de futebol?
Sobre a chegada ao Inter, é importante falar: eu sempre tive o desejo de retornar à casa. Eu tive algumas oportunidades, acho que foram duas antes, mas infelizmente devido aos compromissos contratuais não foi possível. E nesse ano as coisas aconteceram de uma forma que eu entendi que era o meu momento, que existia um propósito para estar aqui no Internacional. E eu venho para cá com esse propósito, com esse entusiasmo de fazer o meu melhor.
É claro, a gente encontrou o Internacional num momento, por tudo que aconteceu em 2025, que o clube está sentindo ainda aquilo que passou. Mas a gente agora chega com uma nova história, com um novo momento, é claro, reconstruindo um pouquinho do nosso elenco. Nessa janela passada foram seis contratações, então nós estamos aos poucos trazendo aquilo que a gente pensa sobre gestão, sobre processos, a forma que eu entendo que o Internacional precisa evoluir em todas as suas áreas. E quando eu falo em evolução não é somente na parte de elenco, claro, que é o que o torcedor mais olha, e com toda razão, mas eu preciso também olhar em relação àquilo que me cabe ao futebol profissional. Importante também dizer que além do futebol profissional, eu tenho o futebol profissional feminino e o futebol de base. Então a gente vem com todo esse escopo de trabalho, e a gente espera que no final disso tudo consiga deixar o Internacional de uma maneira melhor do que eu encontrei.
Está chegando uma janela de meio do ano em que o mercado está muito inflacionado. Como é que é o processo para fazer essa busca por jogadores sem estar com o dinheiro no bolso, sem estar com as fichas para bancar contratações?
Isso já aconteceu na janela passada. As nossas contratações foram com critérios, com conhecimento de mercado, usando toda a estrutura do clube, tudo aquilo que eu tenho de relações. E foi possível fazer seis contratações, com contratos que nos permitiram não ter esse primeiro investimento inicial. Jogadores que chegaram no Internacional, quase todos eles já apresentaram desempenho que realmente validam essas contratações. É claro que a adaptação, quando você contrata um jogador, não é de um dia para a noite. Eu trabalhei em outros lugares, em outros momentos, tem jogador que demora seis meses, demora um ano, um ano e meio. É uma adaptação que esse atleta tem quando chega no novo clube, numa nova cidade, com a sua família.
Mas respondendo a sua pergunta, o que nós temos pra essa janela é usar a mesma criatividade que tivemos na última. O nosso orçamento é enxugado, tanto para a nossa folha em relação aos salários como também em relação àquilo que temos pra fazer a nível de contratação. Então, nós estamos, desde quando chegamos aqui em Porto Alegre, usando a estrutura que o Inter já tem em relação aos scouts, o banco de dados que eu também possuo. A gente está realizando alguns contatos para atender ao nosso treinador, ao Paulo Pezzolano, e para, havendo possibilidade, sanar carências que sabemos que existem.
A gente precisa ser sincero com o nosso torcedor, o trabalho está sendo difícil. É um trabalho que requer muito compromisso, requer, como eu sempre falo, a responsabilidade com o momento do clube. A gente não pode fugir disso, mas é claro, isso também não nos tira a possibilidade de realizar boas contratações. A nossa camisa é uma camisa muito forte, a história do nosso clube é uma história que tem que ser respeitada e é com essa criatividade, é com esse poder de convencimento e com essa história que o Inter tem, a gente espera partir para essa segunda janela. E, dentro daquilo que for possível, realizar contratações pontuais nas nossas carências.
O Inter tem, entre os ditos 12 grandes, uma das menores folhas de pagamento, se não a menor: algo em torno de R$ 12 milhões. Dentro dessa margem, tem como dar uma subida ou, necessariamente, tu precisarás tirar alguns valores para colocar novos, para manter nesse padrão? O teu limite é esse?
Eu queria te falar que eu tenho margem para poder subir um pouquinho, mas se eu falo isso, o financeiro vai ficar com o cabelo em pé. Não tenho, preciso seguir rigorosamente aquilo que nós temos como meta. Existe um fairplay financeiro que está sendo colocado pela CBF, que é mais um elemento. O compromisso com o nosso orçamento, com o clube, com a nossa história, com o nosso momento, vai ser sempre levado em consideração. Então, para que chegue um jogador, a gente precisa fazer todo um ajuste, com saídas. E é claro que são saídas naturais. Às vezes, tem atletas que não conseguem performar, ou por outros motivos precisam ter oportunidade em outros lugares. Então, com essa estratégia, a gente precisa fazer com que a parte de folha se equilibre para que a gente consiga fazer essas chegadas, para que os atletas possam chegar e reforçar nessa equipe. Mas sempre olhando para aquilo que tem de chegada e tem de saída.
O Brasil é um mercado formador e vendedor. Se a gente pegar os grandes orçamentos de Flamengo e Palmeiras, eles também vendem. Tu estás preparado para o assédio que virá no meio do ano dos europeus para os teus principais valores ou para aqueles jogadores que performaram em alto nível nos primeiros seis meses?
É uma parte que parece difícil para o clube, ter que vender os jogadores, mas eu tenho certeza que é importante que os jogadores do Internacional tenham procuras. É um retorno que a equipe dá para o mercado, é importante. É claro, isso vai depender daquilo que nós temos como prioridade, das nossas necessidades. Agora, eu espero que a gente tenha bastante procura, que os jogadores do Internacional se valorizem. Para que isso aconteça, existe uma parte enorme que a gente precisa fazer, é claro. Melhorar no Campeonato Brasileiro, voltar a ter atuações contundentes, como a equipe começa a ter, para que a gente possa ter uma prospecção de atletas importantes do elenco. Isso não quer dizer que a gente vai vender todos. Agora, é claro, o orçamento de um clube é feito da venda de atletas. Como você disse, existem equipes que estão com um fôlego muito maior do que o Inter e precisam fazer essas vendas. Então, eu espero que a gente consiga ter tranquilidade, e oportunidades em relação aos nossos atletas para que a gente possa, no momento certo, fazer, sim, as saídas necessárias. Para que a gente não perca, também, o nosso poder esportivo de competir.
O que você está vendo e como é que é o dia a dia do trabalho com o Paulo Pezzolano?
O nosso querido Abel fala muito sobre essa relação com o Paulo. É um treinador que está muito identificado com o Internacional. Eu e o Abel, no dia a dia, já temos um entrosamento que é importante para as funções, que são áreas de tomada de decisões. E a gente está muito satisfeito com aquilo que o Paulo tem apresentado junto com todo o seu corpo técnico, os seus auxiliares integrados com os nossos da casa. Um treinador que consegue atuar em relação à sua própria plataforma de jogo de diversas formas. Ele demonstrou isso. Ele iniciou o ano jogando de uma forma e entendeu, juntamente com o seu corpo técnico e com a gente, com os atletas, que era importante uma nova formação e conseguiu fazer. É o início de um trabalho, mas são seis meses que já parecem dois, três anos. A gente está, sim, esperançoso, ansioso, entusiasmado para que esse trabalho, a cada tempo, possa dar uma liga maior e o Paulo possa cada vez conhecer melhor os seus atletas, e consequentemente buscar melhores resultados.
É um treinador super atualizado, trabalha com a estrutura do clube. É importante dizer isso porque, da minha parte e da parte do Abel, a gente nunca pensa numa relação curta com o treinador. A gente sabe que o futebol brasileiro é um triturador de treinadores e de profissionais da área, mas a nossa cabeça é uma cabeça estruturada para que a gente consiga dar sequência ao trabalho. Tudo que a gente espera é que a gente consiga ter um tempo maior de trabalho com o Paulo para que a gente comece a buscar resultados consistentes. Eu só acredito nisso. Eu não acredito de outra forma de achar um caminho para o Internacional se não tiver a humildade de reconhecer o momento. É um momento difícil, é um momento de trabalhar dentro da folha. A janela que a gente tem feito, a primeira e a segunda, vão partir para esse perfil de trabalho, de muita criatividade. E só vai ser possível trazer atletas para o Inter que também queiram muito estar aqui com a gente, isso é um perfil que eu não abro mão. O jogador tem que entender muito o que é o clube, o nosso momento.
E uma outra área importantíssima, quando eu falo de estrutura, é a nossa formação de base. A formação do Internacional sempre foi referência e o meu olhar está 100% voltado para isso também. Nós fizemos algumas mudanças em relação ao departamento de base — nada contra as pessoas que lá estavam, nós só entendemos que era o momento de tomar uma nova direção — e a gente espera que com esse trabalho a gente consiga ter mais atletas na primeira equipe e, consequentemente, vender e voltar a fazer grandes vendas. Na temporada passada isso já aconteceu, mas a gente precisa que esse processo seja acelerado para que o Inter possa voltar a formar melhor e, consequentemente, vender melhor também.
O torcedor vai ver mais nomes jovens no grupo principal a partir da volta da Copa do Mundo?
Falar de projeção e de quantidade de nomes é prematuro da minha parte. O que eu posso dizer é que a gente precisa, a gente carece. Está sendo feito um trabalho na base, juntamente com um profissional que chegou lá, o Carlos Noval. Conseguimos, nesses últimos quatro jogos, dar uma retomada em relação ao Campeonato Brasileiro sub-20 (Série B). A equipe conseguiu a classificação para disputar a próxima fase. Agora, há uma necessidade para que o Internacional tenha mais atletas. Então, a gente espera que no segundo semestre a gente consiga incorporar, sim, mais alguns jogadores para que esse trabalho comece a gerar frutos futuros. Eu não consigo dizer quem, quantos, mas certamente terão.
Nesses primeiros seis meses, o que já foi possível fazer? E de que forma é feita essa conexão Parque Gigante-Alvorada?
Bom, o Noval chega com uma equipe, todos eles avaliados por mim. Nós sentamos e entendi com o Noval qual seria a sua necessidade. Ele veio com um gerente que eu também conheço que trabalhou com o Noval muitos anos, é muito capacitado. Uma nova ideia em relação à captação, isso está sendo desenvolvido. E é evidente que a gente precisa, em relação ao nosso estado, ampliar ainda mais aquilo que está ao nosso alcance. Em relação a estratégia — como vai ser, o que está sendo mudado, o que está sendo melhorado —, é algo que está ainda iniciando. Eu posso te garantir que a nossa ideia é que, a cada tempo, a gente trabalhe com mais qualidade e menos quantidade de jogadores. Isso é o que eu passei para o Carlos Noval: “tu tens uma missão importante, eu quero qualidade no Internacional, a gente não precisa ter quantidade”. Nós temos que ter qualidade, e para você trabalhar com qualidade você precisa ter os melhores captadores, ter uma melhor gestão da chegada desses atletas, comissões técnicas de base que são capacitadas para isso para que a gente consiga gerar frutos que possam atender à equipe profissional, e certamente as vagas serão, a cada tempo, aumentadas. Porque, como eu te disse, é uma necessidade de qualquer clube brasileiro ter jogadores de base para que ganhem valores, para que ganhem minutagem e consigam fazer as suas vendas e que possam oxigenar a parte financeira do clube.
Hoje em dia, o Beira-Rio está fisicamente distante da base, que treina no CT de Alvorada. Como tu fazes essa conexão? Como é que teus olhos estão lá em Alvorada para ver quem pode vir para o Parque Gigante?
É claro que o espaço físico no mesmo ambiente, próximo, seria o ideal. Mas não tendo essa condição, isso não nos impossibilita de aproximar as relações. Eu me surpreendi muito com o que vi, e o Abel também falou sobre isso em relação ao CT de Alvorada. Eu não conhecia, eu imaginei que seria muito ruim. Não! Nós encontramos lá um espaço maravilhoso. Mas claro que precisa melhorar. E com um olhar mais atento em relação àquilo que se faz lá no CT, a nossa ideia é que a gente consiga diminuir essa distância. Nós tivemos a chegada do Carlos Naval, ele está fazendo algumas mudanças em relação aos processos em todas as áreas. E nós temos, a nível de profissional e base, dois profissionais que conhecem bastante o Inter, que é o Leomir e o seu Élio Carravetta.
O seu Élio Carraveta está fazendo um trabalho muito interessante, que nós classificamos como um PDI. Ele está acompanhando esses jovens atletas que a gente entende que têm um potencial a nível de profissional. Esse atleta já entra em uma área com o seu Élio. E o Leomir na parte técnica, ele vai periodicamente ao CT, acompanha todos os jogos. Então o Leomir é esse olhar técnico para que ele possa nos fornecer informações do que ele está vendo. Com todos os relatórios que a gente recebe da equipe do Carlos Noval, a gente consegue equilibrar aquilo que acontece lá e tomar as nossas decisões em relação aos jogadores que permanecem com a gente.
Tu vens com uma missão de estabelecer um novo tempo na estrutura física do Inter. Eu, nos meus espaços na RBS, sempre digo que Grêmio e Inter não tem CTs à altura do que são Grêmio e Inter. Como está esse processo todo, que até o Tinga está engajado, de melhorar o espaço físico do CT Parque Gigante?
Reencontrar o Tinga foi um prazer enorme. É um amigo que eu fiz aqui no Internacional. Eu sempre mantive contato com o Tinga e ele sempre falou “um dia você vai estar aqui trabalhando com a gente”. Eu falei: “cara, um dia, quando chegar essa oportunidade, eu preciso que você esteja com a gente nessa jogada”. E foi o que aconteceu. O Tinga foi a primeira pessoa, além da minha família e do presidente, que teve a informação de que eu estava vindo a Porto Alegre. Liguei para ele: “cara, estou chegando e vou precisar da tua ajuda. Se prepara aí para você colaborar naquilo que for possível”. Ele nunca quis se envolver, de uma forma efetiva em relação aos cargos, ele não se preocupa com isso. Mas eu entendi, daquilo que eu vi e fiz um diagnóstico do CT, que nós precisamos melhorar em relação aos espaços físicos e foi aí que o Tinga entrou, juntamente com todos os contatos que ele tem. Ele está nos ajudando a buscar parceiros, amigos que nos ajudem a evoluir.
Já que a gente gosta tanto de olhar para o terreno do vizinho, a gente precisa praticar aquilo que está funcionando. É olhar para o modelo das grandes equipes. A gente gosta muito de ver o futebol europeu, seguir tendências. A gente tem que olhar para isso também. O CT do Internacional é muito bacana, muito bonito, ele funciona muito bem, mas eu entendo que há ainda um espaço enorme para que a área possa ser melhor desenvolvida, para que possa ter crescimento em todas as áreas. A área da saúde, a área de análise de desempenho, a área técnica. É com esse projeto que o Tinga está nos ajudando, tomando parte disso. E eu espero que a gente consiga reunir forças para que a gente consiga tirar isso do papel e o clube evolua.
Quanto ao CT, esse é um legado. Quando você fala de diretor executivo, às vezes a gente fica muito focado, e as pessoas nos avaliam pelo resultado esportivo. Claro, é responsabilidade nossa também, mas não é somente isso, não é somente a contratação do jogador. É a manutenção desse jogador, é a manutenção do centro de treinamento, é todo um olhar para a parte de estrutura de ferramentas, aquilo que o clube precisa se desenvolver em outras áreas. É o departamento de base que precisa de um olhar atento. Agora nós temos, também, a responsabilidade do departamento profissional feminino. Nós participamos do processo seletivo da contratação da nova executiva que chegou. Então, o meu olhar é para o Internacional, para que o clube evolua. E o meu desejo, você não me perguntou, mas eu vou te dizer: eu não vou ficar aqui para sempre, mas eu espero que quando a gente realmente sair da cadeira, a gente consiga deixar uma estrutura, deixar um legado. Eu venho para isso. Em todos os clubes que eu passei, se você for olhar, eu sempre deixei um legado e é isso que me move a estar no futebol. É claro, a gente não faz nada sozinho, e eu tenho uma equipe super competente que está me ajudando, me auxiliando, para que eu tenha esse olhar e consiga ter toda essa estrutura para poder trabalhar nos três departamentos que me cabem.
Um centro de recuperação, uma academia mais moderna, talvez mais um campo estão no projeto. Teria, também, um espaço de dormitório para os jogadores, um mini hotel? Isso carece muito no Inter, de não poder fazer um treino em dois turnos e ter um espaço para que os jogadores possam descansar, por exemplo.
A gente está começando a tirar do papel aquilo que já existia em relação à melhoria desses departamentos no Inter. Nesse primeiro momento, a parte do hotel não está sendo contemplada. Mas é uma outra área que existe um projeto, isso já está com o Tinga, para que a gente consiga trabalhar por etapas. A gente espera que com a ajuda do torcedor, das pessoas que estão engajadas com a gente, a gente consiga juntar o projeto um com o projeto dois e com o projeto três, e a coisa realmente possa tomar um tamanho e que essas obras consigam ser realizadas.
Começou esse movimento e o final eu não sei quando vai ser ou o que vai ser finalizado. Mas a nossa perspectiva é que a gente consiga evoluir enquanto clube, evoluir quanto a processos, e no final de tudo a gente consiga olhar para trás e realmente ver que deixou um legado. É isso que está me movendo e certamente é o que está movendo o Tinga. E através do Tinga estão surgindo outros amigos, outros ex-atletas que têm nos procurado com o coração disposto a ajudar o Internacional.
Tu não sabe onde vai acabar, mas tu sabe quando começa a obra? Tu já tem uma previsão?
No dia 13 vai ter uma feijoada que está sendo muito divulgada, e a partir daí certamente vai ser falado quando se inicia e o tempo para isso. Existe uma equipe competente que está trabalhando do lado do Tinga, alinhado com o pessoal do Internacional, com os nossos engenheiros, com as pessoas que são responsáveis para que esse projeto aconteça, e a hora que estiver tudo bem encaminhado teremos todas essas informações. Acho que todo mundo está querendo saber quando começa, o que vai ser, quando termina, e eu também estou com essa esperança.
Abel no vestiário, o que significa para ti?
Eu repito para ele, algumas vezes, o tamanho do orgulho que eu tenho de estar com esse cara todos os dias. Eu tenho muita, mas muita consciência do tamanho do Abel, do que ele foi como treinador, o que ele representou e representa o futebol brasileiro. O Abel transcende tudo isso. A gente tem uma sala lado a lado, eu saio no corredor e encontro esse cara, com 73 anos de idade, com uma disposição, uma entrega enorme. Todo dia o Abel está ali com a gente acompanhando, interessado. Eu preciso ser sincero, o Abel está me surpreendendo. Ele está um garoto de 40 anos, ele está super interessado. Tudo aquilo que me cabe, a parte financeira, a parte administrativa, a parte de estrutura, o Abel não precisaria entender tanto disso, mas ele faz questão de estar comigo. Eu o coloco em algumas reuniões e ele está muito disposto a continuar a entregar o melhor dele pro Internacional e a gente tá colhendo muitos frutos com o Abel, curtindo mesmo. Eu percebo que os próprios atletas têm essa admiração pelo Abel.
O Paulo Pezzolano é um privilegiado de ter o Abel todos os dias com ele. O Paulo tira muitas dúvidas com o Abel. É importante colocar isso, a humildade que o Paulo tem de estar com o Abel, de estar trocando informações. Ele pergunta realmente o que o Abel pensa, qual a opinião dele. A gente só tem a ganhar, o Internacional só tem a ganhar com a presença desse grande ídolo, uma grande pessoa. Estar com ele é um privilégio que Deus me deu, eu falei isso para ele hoje, e ele está ajudando muito, muito, muito o Internacional.
Tem uma história que ele próprio contou num outro programa, do Benjamin. Vocês viram que o Benjamin estava sofrendo muitas lesões, e foram ver que ele estava morando sozinho, numa condição não muito adequada, entraram em ação com a Patrícia, que é assistente social do Inter há muito tempo, e todo o staff do Inter acolhe e organiza a vida do menino. Vocês têm feito isso com os garotos que estão subindo? Como é essa abordagem?
Tem um livro que fala que a bola não entra por acaso. Eu acredito nisso. A bola não entra por acaso. A cada tempo eu vou me atualizando e entendendo que os processos, um clube organizado, fazem toda a diferença. É uma história muito bacana essa do Benjamin. A gente não pode ficar mais no nosso feeling somente, é um processo. Lembra que eu te falei do Élio Carravetta? Ele identificou lá atrás, ele buscou o histórico de que o Benjamin machucava muito na base. A gente precisava trazer esse menino para dentro, olhar linha por linha do que estava acontecendo com ele, porque ele é um um jogador de potencial. Então, o seu Élio trouxe para a gente essa questão. Nós sentamos com todas as pessoas envolvidas, o departamento médico, fisioterapeuta, o Abel, o nutricionista, assistente social. E aí, chegamos a uma ideia de que cada profissional precisava se aprofundar na sua área. Nutrição: o que ele está comendo? Como ele come? Como está a relação do desse atleta com o alimento? Assistente social: onde ele está morando? Como é que esse cara dorme? A parte médica: o que está faltando no exame desse menino para que a gente realmente entenda o que acontece? Todo esse processo foi estabelecido para que a gente chegasse numa conclusão. E esse processo é bacana porque ele não é só para o Benjamin, ele segue para todos os atletas de base para que a gente comece a desenvolver esse atleta de uma forma que chegue no profissional num nível que consiga competir. E o Abel faz parte desse processo, ele está inserido de uma forma muito mais técnica.
Eu tenho dividido muito bem esse dia a dia com Abel. Existem situações que eu preciso falar com o jogador e o Abel vai lá e conversa. Então a gente consegue dividir essas etapas no dia a dia. Com o próprio Paulo, às vezes eu quero fazer alguma abordagem mas estou com uma demanda muito grande em outra área, o Abel já entra. Essa dobradinha com ele tem sido fundamental, e ele foi fundamental também no caso do Benjamin, e em mostrar para o Benjamin o que ele precisaria acrescentar na parte técnica para que consiga buscar a sua oportunidade na primeira equipe.
Você passou como dirigente pelo Bonsucesso, Bangu, Anápolis, Tupi de Juiz de Fora, Flamengo e Corinthians. O Inter é o trabalho mais difícil da tua carreira, tendo que trabalhar com um orçamento baixo?
Geralmente aquele ser humano que passou por muita dificuldade tem mais habilidade para sair de algumas artimanhas que a vida nos apresenta. Preciso confessar que parei de jogar em 2009, no Fluminense, e eu queria ter uma oportunidade no próprio Fluminense ou em outro clube grande. Mas quando surgiu a oportunidade de ir para o Bonsucesso, eu fiquei com dúvidas. Na época eu fazia estágio com o Rodrigo Caetano, que para mim é o melhor dirigente do Brasil, e ele me recomendou que fosse, mesmo não querendo. Hoje percebo que foi a melhor escola que tive na minha vida. Passei no Bonsucesso, passei no Bangu, passei no Anápolis, onde eu fui vice-campeão goiano, passei no Tupi de Juiz de Fora. Nesses lugares é necessário fazer de tudo. Eu entendo que hoje, tudo aquilo que eu vivi como atleta e que passei em clubes com menores investimentos, a experiência de quatro anos que eu tive como scout do Flamengo, tudo me deu muito conhecimento para sentar nessa cadeira com muita propriedade e exercer a função com muito amor. Dificuldade? Tem. Na maioria dos clubes do futebol brasileiro as dificuldades são parecidas. Eu te digo que estou preparado para entender a necessidade dos clubes e hoje, no Internacional, estou muito feliz de estar aqui. A gente tem algumas limitações financeiras, que é uma realidade nossa, mas com muita criatividade vamos conseguir fazer e entregar o melhor. Eu não vou falar para que é o mais difícil, porque a grandeza e a história do Internacional fazem com que algumas situações a gente consiga se adaptar. É um trabalho difícil e eu começo a perceber que o torcedor está ciente da necessidade de unir todas as forças para que a gente consiga passar por todos os processos, que, em muitos momentos, é doloroso, mas eu não tenho nenhum problema em passar por eles. Eu sei que não temos um orçamento para fazer grandes contratações, mas eu tenho que encarar aquilo que me foi colocado. Como eu disse: estou muito entusiasmado e entendo que estou no lugar certo, no momento certo e quero deixar a minha contribuição para que o Internacional possa realmente disputar campeonatos de uma forma mais consistente. O meu trabalho é deixar o clube estruturado para que os resultados comecem a ser consistentes. Para que o Internacional comece a se aproximar dos principais concorrentes, para que a gente realmente comece a pensar em títulos, que é o lugar que o Internacional precisa estar.
Depois da Copa do Mundo teremos mais 20 rodadas de Brasileirão. Que projeção tu fazes do teu Inter até o final do ano?
Nós não estipulamos nada de meta de onde nós queremos chegar. O camarada que veste a camisa do Internacional sabe o que pensa o torcedor, ele sabe aquilo que a gente precisa fazer e não tem outra informação além dessa. Ninguém vai falar para o torcedor que a gente vai disputar o título brasileiro. Agora, o que a gente tem muito forte entre a gente, juntamente com o Paulo Pezzolano, e ele passa isso pros atletas, é que a gente precisa melhorar a cada jogo, buscar uma melhor colocação a cada jogo. E claro, ali na frente pode ser que a gente consiga estipular algum tipo de meta. Mas o que a gente precisa agora é da entrega 100% dessa equipe, que esses atletas continuem entendendo o que é jogar no Internacional, que eles continuem dando o seu melhor para que a cada rodada a gente consiga melhorar. Para agora é trabalhar e se entregar para que o amanhã possa ser melhor do que hoje.
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