Ramiro vive a tranquilidade da vida segura no Texas. Mais do que isso, vive o grande momento em um clube reconhecido por ser o maior formador de talentos numa liga que só cresce.
Aos 32 anos, chegou ao FC Dallas para ser o líder de um time jovem. Tanto que se tornou um dos capitães da equipe. O sonho americano de Ramiro está melhor do que a encomenda. A rotina de um calendário menos exaustivo permite viver a família e buscar as crianças na escola em Frisco, onde mora, na região metropolitana de Dallas, um dos principais centros econômicos do país.
O CT fica próximo e também mostra a cada dia o quanto foi acertado topar o desafio de jogar nos EUA. São 18 campos e estrutura de ponta, algo que ele não viu nem no Corinthians, nem no Cruzeiro, onde jogou aqui depois de sair do Grêmio.
Os fins de semana completam a sessão convencimento com uma MLS em crescimento dentro e fora de campo. Os públicos raramente baixam de 80% da lotação do estádio. A organização da Liga obedece aos padrões das vizinhas NFL, NBA e MLB. Aliás, a MLB já ficou um pouco para trás. O The Economist publicou no início deste ano que o futebol ultrapassou o beisebol em número de fãs. Não é pouco.
No último fim de semana, Ramiro esteve em campo na rodada final da MLS neste semestre. A partir de agora, tudo será Copa.
Nesta conversa com a coluna, o meio-campista contou sobre o clima no país para o Mundial, analisou o crescimento da modalidade no país que historicamente usava as mãos nos campos e quadras e revelou detalhes dessa nova fase da sua vida. Confere.
Leia a entrevista com Ramiro na íntegra
Você está com bons números na MLS e é um dos capitães do Dallas. Como está sendo essa experiência no futebol da Major League Soccer?
Eu estou bem feliz, bem contente, tanto profissionalmente quanto pessoalmente. No âmbito familiar, é rios de distância do que a gente tem no Brasil em função do número de jogos, de logística de viagem, para ter tempo com a família. O fato de não ter concentração em jogos em casa também facilita bastante. E, profissionalmente, é uma liga que me abraçou. Um clube que me abraçou e me fez sentir importante novamente dentro de um projeto.
Fazia um tempinho que eu não me sentia tão parte de um projeto. Então procuro, da minha maneira, retribuir, como sempre foi, com muito trabalho, muita dedicação, ajudando os companheiros, ajudando os mais novos — é um clube que visa muito jogadores jovens. Então, meu papel de líder, e por ser um dos mais velhos do elenco, é de ajudar essa nova geração a crescer e aproveitar as oportunidades, dar grandes saltos na carreira.
Um clube que me abraçou e me fez sentir importante novamente dentro de um projeto.
RAMIRO, JOGADOR DO FC DALLAS
O Dallas é o clube da MLS que mais lança jogadores. Tem um convênio muito forte com o futebol alemão, principalmente com o Bayern de Munique. Como é a estrutura que tu encontraste aí?
A estrutura de base, de academy que eles chamam aqui, é um mundo à parte. Das informações que eu tenho, existem 4,5 mil crianças envolvidas em toda a infraestrutura de escolinha, de base do Dallas. É um projeto gigantesco. O Dallas tem 18 campos de treinamento. A estrutura de treino do clube aqui eu, sinceramente, no Brasil, nunca vi nada igual em termos de infraestrutura de campos.
É um clube que se caracterizou por dar oportunidade para os jovens jogadores e também vendê-los. O papel do clube, no fim da história, é projetar esses atletas e vender para o futebol da Europa. Historicamente já foram feitas diversas vendas para esse mercado, então é onde se aposta bastante. Diversas famílias e crianças vêm para Dallas apostando nessa oportunidade de ser uma vitrine para o mercado do futebol mundial.
O Dallas tem 18 campos de treinamento. A estrutura de treino do clube aqui eu, sinceramente, no Brasil, nunca vi nada igual.
RAMIRO, JOGADOR DO FC DALLAS
A MLS completa, neste ano, 30 anos, e a Copa do Mundo celebra muito isso. Como você vê o desenvolvimento do futebol aí nos Estados Unidos?
Primeiro de tudo, é uma liga muito organizada e muito regrada. Como a grande maioria das coisas aqui no país acontecem dessa forma, a liga de futebol também é do mesmo jeito. É uma liga que protege muito o produto interno, protege muito o jogador e a imagem da liga perante o mundo.
Existe um sindicato de atletas que tem uma relação bem estreita entre liga, jogadores e clube, o que faz com que o jogador também tenha opinião dentro da liga e faça parte de decisões. Eu acho que isso é uma experiência bem legal e algo diferente do que eu estava acostumado a vivenciar.

E a Liga são 30 times, duas conferências, Leste e Oeste, 30 times com uma estrutura muito bacana — na grande maioria deles. Estádios lotados, os hotéis que a gente se hospeda na liga em todas as cidades, são sempre muito bons, deslocamento aéreo sempre com voo fretado. Acaba o jogo, já volta direto para casa. Então, a estrutura em si da liga é um nível bem legal. A gente se sente, de fato, jogando numa grande liga. E a vinda do Messi e de outras grandes personalidades do futebol mundial para cá faz com que a liga também seja um entretenimento para muita gente. Talvez essa seja a grande explicação para o futebol ter passado o beisebol na audiência do público americano.
E a vinda do Messi e de outras grandes personalidades do futebol mundial para cá faz com que a liga também seja um entretenimento para muita gente.
RAMIRO, JOGADOR DO FC DALLAS
Como é que foi enfrentar o Messi? Teve essa oportunidade?
A gente jogou contra o Inter Miami ano passado, eles fazem parte da outra conferência. Até para explicar o formato da liga: nós temos 14 jogos em ida e volta contra os times da nossa conferência e seis jogos são sorteados contra times da outra conferência. Então, em um desse sorteio do ano passado, a gente enfrentou o Inter Miami, fora de casa. E naquela oportunidade não estavam Messi, Suárez, nem o Busquets e nem o Alba. Eles estavam sendo poupados porque tinham um jogo de Copa no meio da semana, e acabou que eles não jogaram. A gente acabou ganhando de 4 a 3 deles, jogo bem louco.
Como é que tem percebido a atenção dos norte-americanos com a Copa do Mundo?
Eu vivi a Copa de 2014 no Brasil. Estava em Porto Alegre, fui até o Beira-Rio na época para assistir a um jogo. Então eu vivi toda aquela atmosfera, tudo que envolve uma Copa do Mundo, todos os povos, países, todo mundo ali celebrando o esporte e o seu país. E aqui também. Óbvio que o americano não é tão caloroso como o povo brasileiro. É uma cultura um pouco mais fria, um pouco diferente.
O país é muito grande, e por a Copa ser no Canadá e México também, faz com que não esteja tão concentrado aqui e a gente não veja tanta coisa acontecendo perto. Mas o povo está bem ansioso, eles têm uma expectativa bacana em cima da seleção dos Estados Unidos, com bons jogadores, com o trabalho do técnico Maurício Pochettino à frente.
Dallas é uma das sedes e vai receber uma das semifinais da Copa, em um estádio inacreditável para 90 mil pessoas. Estádio do Dallas Cowboys, que é o time de futebol americano. Então com certeza a cidade vai ficar tomada por uma energia surreal. Tem bons jogos aqui em Dallas, boas seleções vão jogar aqui. E eles têm uma característica de, para evento, para entretenimento, os americanos são muito bons, então a expectativa em cima de tudo isso, é bem grande.
Mas o povo está bem ansioso, eles têm uma expectativa bacana em cima da seleção dos Estados Unidos.
RAMIRO, JOGADOR DO FC DALLAS
Nos jogos do FC Dallas acontece como nos do Dallas Cowboys, que é aquele match day, o barbecue no estacionamento, o pessoal confraternizando durante o dia? A impressão que dá é que o jogo é só um evento dentro de um grande evento social.
O jogo é meio que a cereja do bolo. A gente tem todo aquele contexto pré-jogo e durante o jogo. E aqui no FC Dallas, no soccer, a gente tem isso também, mas obviamente é incomparável com o futebol americano, que é a paixão deles, é uma coisa de louco. No soccer existe um pré-jogo, mas é mais parecido com o Brasil.
Duas, três horas antes do jogo, eles têm infláveis no estacionamento, têm o barbecue, os food trucks, hamburguer. Eles têm todo aquele pré-jogo muito voltado para famílias. Esse é o intuito deles aqui: acolher, receber e abrir as portas para todo mundo. Independentemente da idade, da nacionalidade, de onde venha. Famílias, crianças, idosos, adultos todo mundo curtindo e aproveitando a atmosfera de um esporte. Óbvio que eles têm um carinho pelo clube, têm amor, mas é encarado de uma forma bem diferente, com muito mais respeito do que é encarado no Brasil.
Aqui futebol é paixão, e me parece que nos Estados Unidos é entretenimento.
Do que eu tenho visto aqui em Dallas, existe time para todos os esportes. Para o beisebol, futebol americano, basquete, hockey no gelo, etc. E eu fui em todos já, porque eu gosto de esporte e gosto de entender como tudo acontece no país e na cidade que eu estou morando. Então como eu falei, no entretenimento eles são craques: em organização de evento, em atrair o público, em vender produto, em vender ingresso, em promover de fato o esporte, a cidade, a camiseta e a marca deles. Nisso eles são nota 10 e com certeza na Copa não vai ser diferente. Vai ser uma uma mega estrutura de acolhimento, de marketing e de entretenimento para todo mundo.
É uma liga que protege muito o produto interno, protege muito o jogador e a imagem da liga perante o mundo.
RAMIRO, JOGADOR DO FC DALLAS
A cidade já tem uma cara de Copa? A cidade está se transformando ou a Copa vai ser muito localizada em alguns pontos da cidade?
Eu vivo em Frisco, cidade ao lado de Dallas. Aqui existe o FC Dallas e o Centro de Treinamento Dallas Cowboys. Por onde eu passo eu não vejo nada de poluição visual, digamos assim, em relação à Copa. Eu acho que isso talvez esteja mais lá para Dallas mesmo, para Arlington, que a cidade de onde fica o estádio Dallas Cowboys e que é próxima a Fort Worth que é o aeroporto de Dallas. Eles chamam tudo de Dallas, mas na verdade cada coisa é em uma cidadezinha no entorno da grande Dallas. Então aqui, de verdade, tu só sente (o clima de Copa) no conversar com as pessoas, na ansiedade das pessoas. Mas na cidade em si eu não enxergo nada.
Me fala um pouquinho de Dallas em si. Para quem for assistir aos jogos, o que a pessoa vai encontrar nessa cidade e o que sugere para fazer?
O tradicional churrasco texano acho que é legal de conhecer dentro da gastronomia deles. É uma cultura bem similar. Obviamente, devido às proporções de uma cultura um pouco mais fria. Mas é algo bem semelhante ao Rio Grande do Sul no meu ponto de vista. É bastante campo, bastante fazenda. Tem um bairro em Fort Worth que se chama Stockyards, onde tem restaurante, gastronomia, comércio, que é como se fosse um velho Texas.
(Dallas) é bem semelhante ao Rio Grande do Sul no meu ponto de vista. É bastante campo, bastante fazenda.
RAMIRO, JOGADOR DO FC DALLAS
Aquela coisa da porta do boteco balançando, aquela porta dos filmes que a gente assistia antigamente. Todo final de semana eles tem um desfile dos Longhorns, que são os touros, os bois deles com aquele chifre gigantesco. Então, também tem essa parte cultural que eles transmitem para quem está ali. Esse é um lugar bem texano que eu acho bem legal para quem vem de fora conhecer.
Porque Dallas em si não é uma cidade turística. É uma big city, é uma cidade como São Paulo. O entorno tem atrativo para a família, tem muitos parques, parque de diversão, parque aquático porque o verão é muito quente. Tem o memorial do John Kennedy, dois zoológicos, safari. A relação que eu faço com São Paulo é porque São Paulo em si também não é uma cidade turística, mas no entorno tu tens algumas atividades. Aí, claro, cada família, cada pessoa tem um gosto diferente e vai se encaixar em determinado perfil de passeio. Mas eu acho que o Stockyards, pra entender e pra vivenciar um pouquinho do velho Texas, eu acho que é um lugar legal, onde tu vais ter uma gastronomia voltada pro Texas e também os trajes, as botas, os xerifes, enfim. É um lugar que deve ser visitado.
Já comprou teu ingresso para a Copa do Mundo ou não? Qual jogo tu vai assistir?
Tá salgado o preço, estamos vendo se a gente não consegue um descontinho. Porque aqui em casa nós somos em quatro pessoas.
*Colaboraram: Carol Fraga e Rudá Neis
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