
O carioca Luiz Muzzi chegou aos Estados Unidos a tempo de ver a Copa de 1994. São mais de 30 anos atuando no futebol norte-americano. Foi gerente geral do Miami FC e do Fort Lauderdale Strikers, de ligas secundárias, e passou os últimos 12 anos como CSO (chief soccer office), o vice de futebol deles, no FC Dallas (2013 a 2018) e no Orlando City (2019 a 2025).
Ou seja, Muzzi viu de dentro do mercado o crescimento da MLS e o desenvolvimento do futebol no país. Em passagem por Porto Alegre para passar as festas de fim de ano com a família da mulher, gaúcha, Muzzi conversou com a coluna. Mais do que uma entrevista, o executivo deu uma masterclass sobre o futebol no país que vai receber a Copa em seis meses e o viés de negócio com o qual enxerga o esporte, algo muito buscado aqui nos trópicos. Confira.
Como você, de fora, vê as mudanças no futebol brasileiro, como SAF, Fair Play, a entrada das bets?
O mercado brasileiro, se olhar a partir da criação das SAFs, se deu conta de que precisava mudar algo. Você vê investimentos altos, que não necessariamente funcionam. Não basta apenas entrar o dinheiro, porque o dinheiro acaba. Alguns clubes não estão em condições favoráveis. É preciso cuidado. "Vamos fazer a SAF e resolver os problemas", não é assim. Os clubes que conseguiram se estruturar, ter governança, tiveram sucesso. Você vê o Palmeiras e o Flamengo fazendo coisas impossíveis de se imaginar ali atrás. O Fair Play financeiro, acho uma ótima ideia, não o vejo como nivelar por baixo. Os outros que estão abaixo é que precisam chegar acima, continuar crescendo.
O que te chama mais a atenção assistindo ao futebol brasileiro?
Há coisas que aqui que... pelo amor de Deus. Escrevi uma coluna (no site MKT Esportivo) depois de ver um jogo Corinthians x Cruzeiro, um jogo que teve 20 minutos de futebol, no máximo. Todos se jogam no chão, qualquer faltinha tem 10 jogadores em volta do árbitro. Os bancos de reservas, em qualquer lance, ficam pulando. Dei, nessa coluna, duas ideias: comitê disciplinar depois dos jogos, em que se prevê que simulação tenha punição, por multa ou suspensão. Segundo, confronto em massa, três jogadores em cima do juiz, ou entre si, todos punidos, multa ou suspensão. O técnico também seria punido. "Ah, mas ele não fez nada", não importa, ele tem responsabilidade institucional. É preciso acabar com essa chatice de todo mundo reclamar no campo.
Essa é uma parte da mudança, é preciso ver o jogo como espetáculo. Que mais movimentos podem ser feitos nesse sentido?
Só o conteúdo técnico não basta, tem de envelopar o produto, ter mais percepção do que ele é, não quer dizer perder a essência, mas tem de ter respeito ao torcedor, no caso consumidor, segurança para ele. Nos EUA tem famílias inteiras que vão aos jogos. Cheguei ao Sul na reta final do Brasileirão. Dois meses antes, vi que seria possível pegar um jogo ainda, pela data, no Beira-Rio. Mas o Inter estava em situação de rebaixamento, decidi não levar meu filho de nove anos, pelo risco de ter confusão. Primeiro tem de fazer a Liga, tem dois grupos, divisões internas neles, enquanto não fizer a Liga, fica difícil. Vê o exemplo da Inglaterra, o que era em 1992, antes da Premier League. Tem o equilíbrio, esse é um conceito muito americano. Nos EUA, quando um time da NBA vai muito mal, ele é o primeiro a fazer escolha (no draft) no ano seguinte. Vamos para a MLS. O Philadelfia Union foi o último, na outra temporada, foi o primeiro nesta. Temos de ter decisões. Queremos ser uma Liga com Barcelona e Real, que a cada 15 anos ganham 13? Aceitamos? Vamos por um caminho. Aceitamos ser a Bundesliga, com o Bayern? Ou queremos ser uma Premier League, que tem o top six e sempre tem um deles beliscando.
Como se atinge esse equilíbrio?
Há balanços que precisa atingir e entender que nada é perfeito. Precisa chegar em alguns cenários que você tem de aceitar. O futebol brasileiro tem tudo para isso, dando grande passo para abertura de capital privado. Mas é preciso ter cuidado com esse capital, porém é necessário se abrir. A argentina, aqui do lado, está ficando para trás.
Que cuidados precisa nessa abertura de capital?
Temos exemplos, o Vasco fez na corrida e teve problemas. O Botafogo entregou tudo na mão do Textor, teve retorno imediato, mas e agora? Acabou o dinheiro. O Atlético-MG fez uma SAF com capital forte nacional, porém, com algumas ressalvas, ficou na mão de torcedores. Com muita capacidade, tudo isso, mas está encontrando alguns problemas. Não é só fazer a SAF. Tem de fazer um bom estudo para saber onde está se metendo. O capital está aberto, mas cuidado.
O modelo associativo está acabando?
Acho que muda, nunca vai ser aquele clube de 50 anos atrás, quase amador. Sempre vai existir. Podemos dar outro exemplo, no Rio. A torcida do Flamengo tem reclamado da mudança do publico nos jogos, mas o clube procura mais receita. É quase o conceito que se tem nos EUA. Tenho meu produto, 20 mil a capacidade, vou aumentando, vai enchendo, vai aumentando, vai elitizando. O Flamengo sempre foi clube de massa. A Copa do Mundo, a Fifa continua aumentando o ingresso. Estão pagando, vai aumentando. É visão imediatista, tem de ter equilíbrio e ver como vai ser feito. Não tem volta aquele publico nostálgico, nunca mais vou ter aquele Maracanã com 150 mil pessoas, mas também não pode virar um padrão em que as pessoas vão mais pelo show.
Tem de ter cuidado, estamos virando espetáculo.
LUIZ MUZZI
Executivo de futebol
Estive na Espanha e me chamou a atenção o perfil da torcida nos jogos do Barça, de plateia. Essa elitização pode levar a isso aqui no Brasil?
Quem salvou o Mundial de Clubes foram as torcidas sul-americanas. Fui ver Manchester City x Juventus. Silêncio no estádio, pessoal sentadinho. Foi diferente em jogo do Flamengo, Fluminense, torcida vibrante. Tem de ter cuidado, estamos virando espetáculo.
Como se enfrenta isso?
Tem de ter certo percentual de torcedores raiz, digamos assim. Em outros jogos, abra o espaço, não se esqueça de que tem esse público. Encher com valor menor te gera mais para o futuro do que esse de valor imediato. São coisas paralelas, quem está olhando para um lado apenas, perde o seu patrimônio, que é o torcedor. O desafio do gestor é seguir crescendo o torcedor, sua marca. É um grande desafio que não pode ser esquecido.
Você acredita que veremos esse perfil de plateia na Copa?
A Fifa está elitizando. Os preços dos ingressos, estão elitizando. Ela fez essa venda dinâmica e está controlando também a revenda. Eu estava nos EUA na Copa de 1994, foi popular, teve muito desse apelo. O que está parecendo agora é que está difícil de ser uma Copa popular. Tem muito interesse. Brasil x Haiti, o ingresso mais barato custa US$ 1 mil, mais hotel, voo. O cara pensa: "Vou assistir de casa. Ou vou ficar ali perto e vou para um ambiente da Copa, um bar". Interesse tem, o norte-americano é diversificado, tem muitas imigrações. O futebol continua crescendo muito. Entre as crianças é o esporte mais jogado.
O futebol sempre foi o mais praticado entre as crianças, pelo fato de ser democrático em um contexto que valoriza a força no esporte. Como está entre os adultos?
O futebol atingiu um nível em que não se diz mais que é a próxima geração. Tem pessoas na força laboral, na faixa dos 30, 40 anos, que amam o futebol. Vejo muito isso. A MLS já está nesse ponto, com a NFL, a NBA. O país é muito grande. A Copa sempre impulsiona. A MLS começou dois anos depois da Copa de 1994. A próxima Copa tem tudo para alavancar ainda mais a Liga.
O futebol segue sendo predominantemente de imigrantes e mais popular nas regiões quentes dos EUA?
Não acho, esse público imigrante já está na terceira, quarta geração. Hoje mudou muito, tem norte-americanos em todos os mercados. Está faltando a seleção encaixar. Se isso acontecer, como em 2002, em que chegou às quartas, contra Alemanha, tornará a modalidade ainda mais popular. O norte-americano gosta é de resultado. Morei em Boston quatro anos, lá faz muito frio, se joga indoor. O norte-americano quer que seus filhos joguem. Estamos falando do futebol masculino. No feminino, já tem esse apelo. Há 30 anos, os pais gostavam que suas filhas jogassem o soccer, enquanto os filhos jogavam o futebol americano. Isso fez com que a seleção feminina saísse na frente. Quem joga futebol masculino hoje não é mais o imigrante ou descendente. Tem muito norte-americano jogando. Claro, no Sul da Flórida, na Califórnia e em outros centros de maior imigração é mais forte o apelo do que se for no centro do país.
O que a capacidade norte-americana de tornar qualquer jogo em grande evento pode repercutir no que veremos na Copa?
A capacidade deles de fazer evento é muito grande. Temos algo em particular nos EUA neste momento, não é fácil entrar hoje, tem situação política e econômica diferente, há problemas de preços que não estão acessíveis. O evento será grande porque os EUA têm capacidade de fazer eventos e absorvê-los. O público que não liga para o soccer, naqueles 40 dias vai ligar porque adora eventos esportivos. É difícil vender um jogo da MLS, mas não é difícil vender um jogo de Mundial. A Copa tem tudo para ser grande evento, tem coisas que em seis meses eles ainda vão ajustar.
Se disser que a Copa é como se fosse 30 Superbowls, abre para essa pessoa que sonha com o Superbowl conferir.
LUIZ MUZZI
Executivo de futebol
Como o quê?
Essa coisa de público, tem de abrir, tem de ser mais popular, deixar as pessoas com curiosidade participar. Se disser que a Copa é como se fosse 30 Superbowls, abre para essa pessoa que sonha com o Superbowl conferir. O (Gianni) o Infantino quer abrir o mercado norte-americano, de alto consumo.
Você atua em um mercado em que os estádios são multiuso e funcionam sete dias por semana. Isso pode ser replicado aqui?
Na Filadélfia, onde teve jogos do Flamengo e do Palmeiras, o estádio é do Eagles, da FFL. Você tem estrutura de futebol americano, do lado do estádio de beisebol e do lado da arena de basquete. Há uma quantidade de bares, lojas, restaurantes naquele complexo. Vai acontecer aqui, é um caminho longo. Vai transformar um Beira-Rio nisso? Precisa de muitas coisas. A Arena do Palmeiras seria mais fácil, mas ela pertence ao Palmeias apenas quando está jogando. Para chegar nisso, tem um caminho longo. Antes dele, tem o aspecto cultural. Temos de decidir quem queremos ser. A gente quer ser esse tipo de liga de futebol ou quer chegar a um certo ponto e não seguir? Não adianta tentar fazer um monte de coisa sem saber o que quer ser. Olhamos exemplos pelo mundo inteiro, mas é preciso saber o que se quer fazer.
O futebol hoje está em que lugar no ranking do público norte-americano?
O futebol já passou o beisebol. O público do beisebol não teve renovação. A taxa de conversão é menor, muito menor do que a do futebol. As empresas que querem investir em públicos, fazem no futebol e não no beisebol. O "soccer" está crescendo nesse sentido. A competição com a NFL, o futebol americano do college (universitário), da NBA, do basquete do college é muito forte. A MLS mudou o calendário, vai bater com esses esportes, mas vai abrir a parte final do seu campeonato. Os playoffs são hoje no final do ano, batem com a NFL, que se inicia no último trimestre. Essa mudança de calendário, alinhando com o europeu, foi muito estudada pela MLS. Eles analisaram: "Vamos ganhar aqui e perder aqui, já que não há cenário em que só se ganha". Tem de assumir que algumas coisas têm mais problemas. A MLS fez um trabalho excepcional, havia 40 grupos de estudos. Só a linha de estudos sobre o clima tinha três subgrupos. Havia grupos de patrocínio, logística, viagem. Todas as discussões começavam sempre assim, em que em tudo vai se perder algo. A MLS ganhará muito por um lado, mas vai precisar ceder algo.
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