
Nesta semana, o Chelsea anunciou Liam Rosenior como novo técnico. Uma decisão que tem o tamanho de uma Inglaterra inteira. Rosenior, 42 anos, será o primeiro técnico inglês negro em 120 anos de vida do Chelsea. Mais, será apenas o segundo técnico negro da história do clube, um dos mais elitistas do futebol inglês, com endereço em um dos bairros mais nobres de Londres.
Rosenior é filho de um ex-jogador que lutou contra o preconceito no futebol inglês e que hoje comanda uma ONG cujo trabalho é buscar a igualdade racial na Premier League. Essa criação fez dele também um profissional cujas ideias vão além do campo.
Em 2020, ele era um dos colunistas do The Guardian, um dos mais prestigiosos jornais do mundo. Foi nessa época que ele publicou uma carta aberta a Donald Trump, condenando sua postura em relação à morte de George Floyd, um cidadão negro, por dois policiais brancos.
Em um dos trechos mais contundentes, escreveu: "Obrigado por não se curvar ao politicamente correto e nem mesmo fingir se preocupar com aqueles que não se parecem com você ou que não compartilham de sua visão de mundo ultrapassada, desgraçada e perturbadora".
O destino, esse maroto, fez com que Rosenior ganhasse destaque justamente na mesma semana em que Trump vira manchete. Por caminhos e visão de mundo bem distintas, é verdade.
Reparação por um passado racista
A escolha por Rosenior tem um simbolismo imenso por se tratar do Chelsea. O clube teve seu primeiro jogador negro apenas em 1982. Paul Cannoville, então com 20 anos, foi contratado do Hillingdon Borough.
Em sua estreia, quando o técnico mandou-o aquecer para entrar contra o Crystal Palace, ouviu gritos racistas e viu uma chuva de bananas em sua direção. Virou-se para reagir e levou um golpe: tudo aquilo vinha da sua própria torcida.
Cannovile, em entrevista ao site da ESPN, conta que no caminho entre a estação de metrô e Stamford Bridge não se via negros ou estrangeiros com a camisa do Chelsea, por medo de serem atacados.
Cannovile jogou cinco temporadas no Chelsea, ajudou o clube a conquistar o título da segunda divisão e saiu para o Reading. Nesses cinco anos, contou na entrevista, seus sábados em campo eram sempre torturantes, pelas manifestações racistas que ouvia.
Em 2006, o clube o procurou e iniciou uma cruzada para se redimir desse passado triste. Cannovile batizou com seu nome uma das arquibancadas de Stamford Bridge. O maior camarote do estádio foi presenteado a ele e também leva o seu nome.
O Chelsea apoia a fundação criada pelo ex-jogador, cujo principal trabalho é, a partir de sua história, conscientizar crianças e jovens em idade escolar da importância da luta contra o racismo.
Avanço a passos curtos
Rosenior mostrou no Strassbourg, clube satélite do Chelsea, sua capacidade como técnico. Ou seja, seu salto para Stamford Bridge se dá pelo campo. Mas é impossível desconectar essa chegada ao que representa não apenas ao Chelsea, mas a toda a Premier League.
Ele será o segundo técnico negro no campeonato nesta edição — o outro é o português Nuno Espírito Santo. Um estudo da Black Footballers Partnership, de 2024, apontou que 43% dos jogadores da Premier League eram negros, mas apenas 4% dos cargos com ex-jogadores eram ocupados por negros.
O Chelsea enfrenta o Charlton, rival do bairro vizinho, neste sábado (10), pela Copa da Inglaterra. Será a estreia de Rosenior. Que ele tenha muito sucesso no comando do Chelsea.
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