
Neste sábado, tem jogo. E decisivo, do líder contra o vice-líder do campeonato – da Nicarágua. Sim, a bola segue rolando lá no minúsculo país da América Central, que de tão espremido entre Honduras e Costa Rica bastam seis horas de carro para atravessá-lo. Mesmo com o mundo alarmado com o coronavírus, a Liga Primera, o campeonato nacional, segue a pleno. Tanto que o carioca Flávio Rego da Silva está na beira do campo no comando do Cacique Diriangén, o vice-líder, no jogo contra o Manágua, o líder.
Flavio, é claro, está assustado. Assiste ao noticiário do Brasil, pela Globo Internacional, e percebe, assim como os jogadores, os riscos da pandemia. A alegação para a vida seguir seu ritmo normal é de que os protocolos repassados pelo Ministério da Saúde ainda não recomendam quarentena. A Liga consentiu, no máximo, a jogar com portões fechados. O que vem sendo feito há duas rodadas.
Nesta sexta-feira, a Nicarágua registrou mais dois casos de covid-19, ambos importados de passageiros que desembarcaram dos EUA. No total, são quatro casos, uma morte e mais 15 suspeitos. O suficiente para que os clubes reivindiquem a paralisação imediata.
Havia uma expectativa de que o campeonato parasse depois da rodada deste fim de semana. Porém, o movimento deve ser o contrário. O calendário previa 10 dias de recesso para celebrações da Semana Santa. Há quem aposte que a folga dê lugar a mais jogos para acelerar o final da competição – faltarão seis rodadas para o final.

— Vamos levando a vida, lutando. O campeonato segue porque a orientação do Ministério da Saúde é de que não se necessita de isolamento — conta Flávio, por telefone.
Os dirigentes do Diriangén e Flávio tomaram medidas. Os jogadores chegam fardados para o treino e saem do campo direto para casa. A ordem é evitar aglomeração no vestiário. Alguns entram para jogar com máscaras cirúrgicas. Claro, não deu certo. A oração antes e depois dos jogos está proibida. Cada um deve exercitar sua fé sozinho. Nos jogos, é recomendado distanciamento no vestiário.
Como o país é pequeno, as viagens são de ônibus. Todos são obrigados a usar máscaras, e as paradas são frequentes para que desçam, higienizem as mãos e se hidratem.
— É bem estranho, paralisou o mundo e nós seguimos (em atividade). Como o nosso clube, tem outros que pensam ser mais prudente parar. Podemos ter a nossa verdade, mas eles (autoridades) têm a deles. Nas escolas, alguns pais, como eu, preferem não mandar os filhos — conta o técnico.
Flávio evita falar das questões políticas. Questionado se a mão firme do presidente Daniel Ortega estaria por trás dessa decisão de seguir com o futebol, o brasileiro limita-se a dizer que trata dos aspectos esportivos apenas.

Mas é preciso um breve resgate histórico para que se entenda a situação atual. Ortega ganhou proeminência quando os sandinistas derrubaram a ditadura de 45 anos da família Somoza em 1979.
Cinco anos depois, foi eleito presidente com 70% dos votos. Ficou seis anos no cargo e voltou ao poder em 2006, depois de três derrotas nas urnas. Instalou-se no comando do país com ações enérgicas e pouca disposição para o diálogo.
Flávio evita esse debate. Prefere valorizar o acolhimento, a segurança, qualidade dos sistemas de saúde e educação e o baixo custo de vida. Desde 2008, ele se divide entre o Tigres do Brasil, clube da segunda divisão carioca gerido por nicaraguenses, e chamados de clubes do país que adotou como seu. Lá, é tratado como um Jorge Jesus. Não fosse a questão de desafiar a pandemia, seria seu mundo ideal.




