Na madrugada de 15 de setembro de 1986, o Instituto de Cardiologia, em Porto Alegre, fez uma cirurgia histórica. O jornal Zero Hora estampou o ineditismo na capa da edição do dia seguinte: "O primeiro transplante em mulher no Rio Grande". A arquiteta e pintora Leda Eleonora Heinrich, 30 anos, foi a primeira mulher a receber um coração no Estado.
A paciente sofria de uma arritmia cardíaca progressiva, com paradas cardíacas frequentes. Mantida em unidade de terapia intensiva nos meses anteriores, ela via na cirurgia a sua única chance de sobrevivência.
O procedimento pioneiro, conduzido pela equipe do cirurgião Ivo Nesralla, mobilizou o Estado em uma corrente de esperança. O coração que renovou a vida de Leda veio de um gesto de solidariedade em meio à tragédia. O doador foi o adolescente José Luiz Pereira, morador de Cachoeirinha.
Em uma noite de sábado, um dia antes de completar 17 anos, o rapaz comemorava o aniversário com amigos em casa. O grupo decidiu ir ao centro da cidade. No trajeto, o aniversariante foi atropelado. Levado a Porto Alegre, José teve morte cerebral confirmada no dia seguinte. Inicialmente, os pais resistiram a aceitar a doação do coração, mas mudaram de ideia após uma conversa com a receptora.
A recuperação de Leda superou as expectativas médicas. Em 9 de outubro, 24 dias após a cirurgia, a paciente recebeu alta hospitalar sob aplausos emocionados dos funcionários e médicos no saguão do hospital. Usando uma máscara de proteção, concedeu entrevistas. Quando chegou em casa, na Avenida Nonoai, celebrou o retorno com a família.

O recomeço de vida foi interrompido de forma inesperada, sete meses depois da cirurgia. Em 26 de abril de 1987, a arquiteta faleceu em Porto Alegre.
A causa da morte foi uma apendicite aguda supurada. O Dr. Nesralla esclareceu que não ocorreu rejeição ao coração, que mantinha excelente desempenho, mas os medicamentos reduziram as defesas imunológicas da paciente.
Era só o início de uma nova fase da medicina, que evoluiu e salvou muitas vidas por meio de transplantes nas últimas quatro décadas.

