O trem só chegou a Gramado e Canela graças a uma engenhosidade que desafiou a geografia da Serra. Por mais de 40 anos, os passageiros e as cargas completavam parte da viagem de uma forma inusitada. A locomotiva fazia uma manobra para percorrer em marcha à ré um trecho de três quilômetros, superando um grande desnível que quase inviabilizou o projeto. A criativa solução de engenharia ferroviária foi batizada de Rabicho.
A empresa João Corrêa & Filhos, responsável pela construção da linha entre Taquara e Canela, deparou-se com um desafio para a continuidade do projeto após a localidade de Várzea Grande, onde a estação foi inaugurada em 1919. O trem precisava vencer uma diferença de 115 metros de altitude em um trecho curto, de apenas três quilômetros. Hoje, essa declividade é pouco percebida por quem viaja de carro, por causa dos cortes e aterros feitos para a abertura da rodovia ERS-115 na década de 1960.
Na época, as alternativas tradicionais para vencer o morro eram a escavação de um túnel ou a criação de longos desvios. As duas possibilidades eram caras e alterariam o traçado da ferrovia. O plano era levar o trem até Gramado, então sede de distrito de Taquara, e Canela.
A construtora encontrou uma saída brilhante e econômica. Ao usar a força da locomotiva em marcha à ré, o motor operava com maior potência, garantindo a tração necessária para vencer a subida pesada sem a necessidade de obras civis gigantescas.
O trem vindo de Taquara parava na Várzea Grande, seguia de frente até a primeira ponta do Rabicho e parava. Ali, os ferroviários faziam manualmente a mudança de via. A composição começava a subir os três quilômetros de ré. No alto da elevação, o trem encostava, e uma nova mudança nos trilhos direcionava a locomotiva para seguir de frente rumo à estação de Gramado, inaugurada em 1921. O processo durava cerca de 40 minutos, permitindo que alguns passageiros fizessem a trilha a pé para esperar a composição na parte alta.
O carro-motor, uma espécie de ônibus adaptado aos trilhos e movido a gasolina ou diesel, conseguia subir sem fazer manobra. O veículo apenas entrava em uma plataforma circular giratória manual, que rodava 180 graus para inverter a posição da frente do veículo antes de seguir viagem. Os dois giradores ficavam nas chamadas Ponta de Baixo e Ponta de Cima.
A Ponta de Cima, a 730 metros de altitude, tornou-se um espaço simbólico. Pela beleza do vale e a curiosidade das manobras, o local virou um ponto de encontro da comunidade e cenário para fotografias.
A ferrovia até Gramado e Canela foi desativada em 1963. Nos últimos anos, pesquisas identificaram valiosos resquícios da estrutura em meio à vegetação na Várzea Grande, que hoje é um bairro de Gramado.
A origem do nome Rabicho é anterior à própria ferrovia. O termo remete a uma corda da montaria de cavalos colocada sob o rabo do animal para prender a sela nas descidas. Como o morro era muito íngreme, essa corda arrebentava com frequência entre os tropeiros. O local ficou conhecido originalmente como Morro Arrebenta-Rabicho.
Lançado neste ano pelos pesquisadores Alex Juarez Müller, Eduardo da Silva Weber e Wanderley Cavalcante, o livro Histórias e Memórias dos Tempos do Trem (Editora Edigal) resgata estas e outras memórias da linha férrea entre Taquara e Canela. A publicação está à venda no site da Livraria Martins.
Várzea Grande

Reinaugurado em 2024, o Museu Estação Férrea Várzea Grande preserva a história do trem. Mantido pela prefeitura de Gramado, ocupa a antiga estação do bairro Várzea Grande, inaugurada em 1º de julho de 1919.
Museu Estação Férrea Várzea Grande
- Local: Rua Oscar Wille, 165, bairro Várzea Grande, Gramado
- Horário: segunda a sexta-feira, das 8h às 11h45min e das 13h às 16h45min
- Visitação gratuita




