O Parque do Pontal, que hoje é um dos espaços mais bonitos de Porto Alegre, já foi o ponto de descarte de esgoto cloacal da cidade. Quem caminha por aquela área da orla do Guaíba nem imagina o que acontecia ali no passado. Um cubo, chamado de cabungo, e uma placa instalados em um dos caminhos resgatam a história da antiga Ponta do Melo.
Sem um sistema de encanamento para coleta de esgoto, os cabungueiros passavam pelas casas para recolher os recipientes de madeira cheios de fezes e urina. Os dejetos eram despejados no rio na área central da cidade, causando mau cheiro e problemas de saúde. Empresas prestavam esse serviço de coleta domiciliar. Em 1896, Porto Alegre já somava 5 mil assinantes do Asseio Público.
Em uma tentativa de afastar o esgoto do centro urbano, foi construída, no final do século 19, uma ferrovia em direção ao sul da cidade. Pelo plano original, o trem levaria vagões carregados de cubos até a Ponta do Dionísio, atual bairro Vila Assunção. Em razão de um impasse com o proprietário das terras, porém, o projeto precisou ser alterado. O trapiche foi construído na Ponta do Melo, onde hoje ficam o Parque do Pontal e o Pontal Shopping. A operação regular do serviço começou em novembro de 1899.
No livro Porto Alegre: Guia Histórico, Sérgio da Costa Franco revela que o número de assinantes do serviço de coleta de cubos aumentou no ritmo do crescimento da Capital, mesmo após 1912, quando foram inauguradas as primeiras redes de esgoto cloacal. Na década de 1920, os carroções foram substituídos por caminhões. O primitivo sistema de cabungos só foi extinto em 1962. Nessa época, os resíduos já não eram mais despejados no rio na Ponta do Melo. O local foi ocupado pelo Estaleiro Só entre 1949 e os anos 1990.
O Parque do Pontal foi construído como contrapartida à implantação do complexo com shopping, hotel, centro de eventos e salas comerciais. Além da exposição de um modelo de cubo usado no passado, foi criada uma janela arqueológica para visualizar o pilar da antiga Estação do Asseio Público.
Ferrovia do Riacho
A Ferrovia do Riacho, pensada inicialmente por razões sanitárias, também transportou passageiros e cargas, contribuindo para o processo de urbanização da Zona Sul. Uma estação de madeira foi erguida no bairro Tristeza, onde os primeiros passageiros começaram a chegar em janeiro de 1900.

O ponto de partida da linha ficava ao lado do Riacho (Arroio Dilúvio), antes da canalização, perto da ponte de pedra preservada no Largo dos Açorianos. Mais tarde, a ferrovia foi estendida, chegando à Pedra Redonda, à Vila Nova e ao matadouro da Serraria. A linha também foi conectada à Estação Ildefonso Pinto, próxima ao Mercado Público, no Centro.
Em 1936, o Trenzinho da Tristeza, apelido da linha, deixou de transportar passageiros. A operação continuou apenas com cargas até 1941, quando a grande enchente destruiu parte dos trilhos. A ferrovia percorria as margens do Guaíba até o Cristal, tornando-se vulnerável em períodos de cheias.


